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sábado, 16 de maio de 2020

A MODERNA EXPERIÊNCIA CRÍSTICA


Como estamos na época compreendida entre a Páscoa e a Ascensão de Cristo, vou escrever sobre a moderna experiência Crística.
Meu texto está fundamentado nas observações da Dra. Ana Paula Cury em “Condições da moderna experiência Crística – Evolução da Liberdade”.
No Batismo do Jordão, o homem Jesus de Nazareth empresta seus invólucros corporais para que o Ser Solar Maior, o Cristo, possa se manifestar e atuar na condição humana.
 A humanidade estava correndo o risco de perder sua evolução, de não mais cumprir sua meta de desenvolvimento, porque não mais se lembravam da sua origem, e nem do seu destino, que é se tornar a décima hierarquia, Seres da Liberdade e do Amor.
Assim, veio o Cristo para a Terra, e deixou com exemplos os ensinamentos do Amor altruísta, a fim de que os homens  possam novamente se reconectar com sua verdadeira natureza espiritual. Desse modo, este Ser Solar Maior se instalou nas profundezas das almas humanas de maneira inconsciente esperando o momento certo para que compreendam a lição do Amor, a exemplo de uma semente que fica na terra aguardando o momento certo para germinar.
Podemos fazer uma relação com o Prólogo de João:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”. Ele estava no princípio junto de Deus,
Tudo foi feito por ele, sem ele nada foi feito. Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”  João, 1, 1-5.
Para poder cumprir a sua meta de desenvolvimento, a humanidade, através das épocas culturais, teve que, cada vez mais, se individualizar adquirindo autoconsciência, se apartando dos seres espirituais e desenvolvendo o pensar autoconsciente, o que levava também a um pensar materialista e fundamentado nas ciências naturais, assim tomando posse gradativamente de uma liberdade, que hoje chega ao ponto de até poder negar a existência de um ser Divino Solar que esteve presente na Terra, através de um pensamento livre.
Esta capacidade de se apartar da convivência com Seres Divinos Espirituais no Mundo Espiritual está em consonância com os desígnios da Trindade Santa, pois a humanidade agora tem a liberdade para escolher o caminho que quer traçar, ou recordar a sua origem divina espiritual através de um moderno caminho iniciático crístico, por livre e espontânea vontade, sem nenhuma influência externa de gurus ou autoridades religiosas, como era praticado nas Antigas Escolas de Mistérios, ou continuar com um pensamento materialista e egoísta influenciado pelas potências adversárias.
Cristo, Ser Solar, veio a Terra, por três anos, morreu na Cruz e em três dias ressuscitou e ficou por quarenta dias junto aos discípulos, ainda ensinando sobre o Amor, até sua Ascensão aos Céus. Mas ele não voltou para o Sol, ficou na Aura Terrestre como um ser Angélico e se manifesta em forma etérica.
E assim está escrito no Evangelho de Mateus cap.28 v.20:
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.”
E cada ser humano que se propuser em total liberdade a ter atitudes altruístas, amorosas levando em conta princípios morais e éticos, e em comunhão com o Cristo despertará em sua alma a consciência que foi depositada por ele quando da sua passagem pela forma humana, e assim começará a desenvolver a  experiência moderna da sua manifestação.
Ou então, qualquer indivíduo que se proponha também, em liberdade, a estudar e praticar atos a partir dos ensinamentos da Ciência Espiritual deixados por Rudolf Steiner junto com o Ser Antroposofia, transformando egoísmo em altruísmo, levando em conta princípios morais e éticos, também poderá despertar a consciência para seu autoconhecimento e seu desenvolvimento e assim experimentar a mesma vivência do Cristo no Etérico.
Nas sábias palavras de Jesaiah Bem - Aaron
“Qualquer experiência moderna do Cristo, seja ela tão poderosa e transformadora  quanto possa ser, deve ser vista como uma aproximação amistosa, respeitando inteiramente a liberdade humana e responsabilidade consciente pela totalidade da vida, oferecendo ao homem uma experiência de si mesmo que possa servir como exemplo e protótipo, modelo de uma possível evolução futura. O Cristo planta uma potente semente na alma humana, mas Ele o faz de tal modo que esta semente só venha a se tornar frutífera na vida futura da humanidade, quando o próprio homem, a partir de sua livre iniciativa, moral e cognitiva, dela se aproprie (individualize) e a leve adiante em seu desenvolvimento."
Cristo deixou forças para despertar no ser humano a consciência de que somos seres espirituais vivendo experiências humanas. Mas essa afirmação só fará sentido no ser humano que, em total liberdade a reconheça no seu coração como verdadeira.
Com esse reconhecimento o ser humano então saberá que sua origem é espiritual, e que através de experiências humanas, como no caso um caminho iniciático cristíco cognitivo livre e consciente, ele saberá também que o seu destino, ao exemplo do Cristo o Logos, é a doação de Amor para a Terra.
Como bem colocado por Rudolf Steiner em O Evangelho segundo João – Ciclo de Conferências  de Hamburgo.
“A missão da nossa Terra consiste em que seres a se desenvolverem nela levem o elemento do amor a desabrochar até o máximo possível....Porém o que o ser humano realmente doará à Terra é o amor, que se desenvolverá de sua forma mais sensual à forma mais espiritual.”
O Cristo é hoje o Mestre Iniciador, o Guia Espiritual, mas, ele só se aproxima  do ser humano, nesta época moderna, quando nele houve um despertamento consciente para os seus ensinamentos.
Em momentos de solidão, dor, desespero, ansiedade e depressão, os seres humanos sentem-se separados da fonte de vida que emana do mundo espiritual, e é nesse momento que Cristo pode se aproximar para que aconteça o despertar espiritual consciente, veja se não é esse o momento que a humanidade está vivenciando com a pandemia.
Se alguma das dores acima for enfrentada conscientemente todos nós poderemos experimentar a aproximação do Cristo revelado no plano etérico, nos agraciando com forças para enfrenta-las, e com isso todos nós podemos  avançar conscientemente no autoconhecimento e assim dar um passo evolutivo em direção ao amor espiritual.
Assim diz sabiamente Dra. Ana Paula Cury:
“Cristo mostra as alturas e as profundezas do ser a fim de ajudar-nos a encontrar o equilíbrio e seguir de forma consistente na busca de nosso Verdadeiro Eu. Ele nos exorta ao autoconhecimento e nos acompanha como uma presença amiga, consoladora, que orienta e guia sempre que o necessitamos.”
Acredito que nós, habitantes do Planeta Terra, diante da pandemia que nos assola, estamos diante de um momento para experimentarmos esta moderna iniciação crística, pois diante do isolamento social, do medo do vírus invisível, estamos vivenciando as dores de um abismo, mas se levarmos essa situação conscientemente, fazendo reflexões que levam ao autoconhecimento, a busca pelo Eu Superior, sendo mais altruísta e amoroso não só conosco, mas principalmente com os outros, aí vamos ver a Cruz que se levanta sobre o Mal, e de novo acontecendo o Mistério do Golgotha derramando as forças para que nós avancemos cada vez mais para a meta evolutiva.
Citando novamente Jesaiah Bem – Aaron:
“Somente por meio deste íntimo autoconhecimento pode o homem corretamente entender e dispor da benção que o Cristo confere a seu ser. Ele compreende que o Cristo lhe mostra em imagens, palavras e atos aquilo em que ele pode se tornar se trabalhar em si a partir de sua livre decisão e contínuo esforço.”
E assim, se continuarmos nos esforçando para trilhar a Moderna Iniciação Crística em liberdade e principalmente em amor desinteressado pela humanidade, então no futuro poderemos falar verdadeiramente as mesmas palavras de Paulo de Tarso na Bíblia em Gálatas cap.20 v.20-21.
“Não mais Eu, mas Cristo em mim”
Por fim, para este momento peculiar que a humanidade está vivenciando nestes dias, vou colocar um poema do saudoso compositor brasileiro Gonzaguinha, para que nós não percamos a fé e tenhamos nas nossas mentes e corações a certeza da ajuda sempre presente do Mundo Espiritual.

 Semente do Amanhã


Ontem um menino que brincava me falou
Que hoje é semente do amanhã

Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere não, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!

Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!
Nós podemos tudo
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será

RITA PAULA WEY NUNES DA COSTA

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Nova consciência


A humanidade para o seu desenvolvimento já passou por várias épocas culturais, vamos destacar a terceira época, a egípcia, que desenvolveu a alma da sensação, na quarta  época, a grego – romana, desenvolveu a alma do intelecto ou da razão, e agora estamos na época quinta, a europeia, e devemos desenvolver a alma da consciência. Desde 1413 a humanidade adentrou a este período da alma da consciência.
Anteriormente, no período da alma da razão, a humanidade aprendeu o pensar lógico e racional, a partir da observação     exterior, e isso foi muito importante para as descobertas científicas e o seu desenvolvimento. Nessa fase os homens dependiam de gurus, sacerdotes, clãs, família de sangue, nos quais eles se espelhavam e consequentemente eram guiados e obrigados a seguirem seus valores e preceitos morais, não existia a autoconsciência.
Agora todos nós estamos no período da alma da consciência, a tarefa que temos que desempenhar é desenvolver cada vez mais o livre pensar, sentir e querer e ser cada vez mais autoconsciente, a fim de contribuir para a evolução da humanidade. Como foi dito por Daniel Burkhard “Por sua vez, Rudolf Steiner, com sua capacidade clarividente, descreveu a identidade humana em seu constante processo de desenvolvimento com bastante clareza. Ele descreveu o próprio eu, que, como entidade espiritual passando por muitas encarnações, começa a despertar e a se dar conta de nossa condução interior na quinta época cultural, a nossa.” (em Nova Consciência  - pág.19).
Hoje, século XXI, qual o cenário que vemos: os gurus e sacerdotes não servem mais para nos conduzir, pois lhes falta credibilidade, porque muitas vezes suas ações não correspondem com suas palavras, a família, como nosso porto seguro está em crise, não preenchendo mais nossos valores, o mundo globalizado e integrado também não nos indica mais que pertencemos a uma raça ou nação, pois estamos todos interligados.
Assim, estamos sós, nos sentindo desamparados, porque antigamente havia algo que nos orientava, agora temos que olhar para o nosso interior, para o que somos  e quem somos, e assim desenvolvermos o pensar, valores, moral e ética.
A partir da nossa autoconsciência e liberdade temos que nos desenvolver para o bem e contribuir para a nossa evolução, bem como a evolução de todos.
Podemos começar com a observação do nosso pensar, de como tantas vezes a partir de uma inconsciência somos levados a pensar errado.
Como a internet, televisão, celulares, jogam informações sem controle, e a partir do desenvolvimento do pensar correto, moral e ético, permeados sempre pelo amor e altruísmo e pela auto observação, essas informações passam por nós, e temos condições de questioná-las e assim absorver o que for  bom, e descartarmos  o que é ruim, viver sem ilusões que nos conduzam a uma inconsciência e assim uma opinião errada.
Depois podemos observar o nosso sentir, temos compaixão pela dor do nosso próximo, ou simplesmente na inconsciência não sentimos nada, o sofrimento do outro não reverbera no nosso coração? Ainda somos conduzidos pela vaidade, compulsões, mentiras, amoralidades e instintos. Como bem diz Daniel Burkhard “Rudolf Steiner revela que a tarefa da época da alma da consciência é elevar  nosso lado instintivo para a clara consciência.” (em Nova Consciência  - pág.22).
Através dessa auto observação devemos desenvolver a Empatia em relação ao sofrimento, nos devemos sempre nos colocar no lugar de quem sofre, sem julgamentos ou cobranças.
E nossas ações são também permeadas pelo amor, ou são egoístas visando somente nosso bem estar, nosso querer está em consonância com o nosso pensar e sentir? Quantas vezes tivemos preguiça em pegar um livro de Rudolf Steiner e estudá-lo, de colocar nosso esforço a serviço de um auto desenvolvimento a fim de nos tornarmos mais humanos, para servir melhor a humanidade.
Muitas das nossas ações inconscientes são egoístas, meros atos sem sentido moral, somente satisfazendo nosso Ego, mas se tivermos atentos a nós mesmos, desenvolvendo a autoconsciência e colocando em prática nos nossos atos com amor, esses atos serão não só benéficos para nós, mas para todos os homens. Conforme Rudolf Steiner “ Um profundo respeito  pela individualidade do outro  e um verdadeiro interesse pelo outro. Essas duas qualidades podem ser treinadas e, se o esforço for realmente honesto, o amor espiritual não tardará a aparecer como graça divina...” (GA 186, Dornach, 6 de dez.1918).

Assim, nos dias de hoje urge o auto desenvolvimento, somente seremos seres melhores a partir desse desenvolvimento, o mundo parece vir ao nosso encontro de, como dito amplamente, vem para nós com inversão de valores morais e éticos, temos a ilusão de remarmos contra a maré, mas devemos sempre seguir em frente, mesmo quando pessoas que amamos não comunguem com o novo aprendizado, nesse momento devemos vivenciar a Antroposofia através da nossa coerência entre o pensar, sentir e agir, permeado de Amor e Liberdade.
Finalizo o tema proposto neste texto com um trecho do livro de Daniel Burkhard – Nova Consciência  - Altruísmo e Liberdade na pág. 14.
“Mas durante nossa travessia certamente também teremos momento de grande alegria, por exemplo estar no topo de uma montanha e encontrar outros seres humanos que fizeram o mesmo esforço que nós para chegar lá, talvez  com o objetivo de visualizar uma melhor paisagem a partir dali. Talvez olhemos juntos para trás no intuito de constatar quanto já caminhamos  e quanto já nos transformamos. E talvez juntos descubramos que a maior alegria que pode existir  para um ser humano é saber que se está sozinho e que se está no caminho certo rumo ao grande objetivo que é a conquista da dignidade de um ser humano livre.”



Rita Paula Wey Nunes da Costa

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Palavras


Minha pátria é minha língua. Fala demais, por não ter nada a dizer. Quem não se comunica, se trumbica. Deixa que digam, que pensem, que falem. Mas já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
É possível escrever um texto sobre comunicação utilizando apenas as frases tantas vezes repetidas nas suas mais diferentes formas: escritas, cantadas, narradas…
Temos ao redor de 400.000 palavras na língua portuguesa e, dentro de todo esse universo de possibilidades as mais usadas são o substantivo coisa, o adjetivo bom e o verbo ser. Bom ser coisa?
Qualquer ferramenta mal utilizada, perde o seu propósito e pode causar danos irreversíveis. O bisturi na mão de um médico inábil, a fé utilizada para subjugar, as panelas para quem desconhece o caminho até a cozinha. Há três coisas na vida que nunca voltam atrás: a flecha lançada, a oportunidade perdida e a palavra proferida. Deus dotou o homem de uma boca e dois ouvidos, para que ouça o dobro do que fala. Falar é prata, calar é ouro. Utilizamos de maneira adequada essas dádivas?
Desde a Torre de Babel nos perdemos nas 6.912 línguas dos homens, catalogados pelo compêndio Ethnologue. Ainda não foram catalogadas as línguas dos Anjos. Mas, sem o Amor, qual seria a utilidade delas?
As primeiras palavras de um bebê, momento que emociona à todos, têm amor e comunicam sem deixar margem à dúvida: mama, papa. Reconhecimento daqueles que ama, que o nutrem, que fazem com que sua vida seja possível. Quanta diferença entre esse momento e o primeiro revés na comunicação quando o bebê, ao redor dos 3 anos e com o não já bem articulado, diz “Eu não quero”. Babel instala-se dentro de nosso próprio lar e ainda não chegamos à adolescência.
Podemos escolher as palavras certas. Como um lapidário que, com sua habilidade e instrumentos adequados, modela, dá luz e transforma em joia de valor a pedra bruta que tem em mãos. Observamos as circunstâncias, o ambiente, avaliamos o assunto que está sendo tratado, analisamos onde queremos chegar neste processo de comunicação e ofertamos nossa elaboração ao outro. Expressamos para o nosso interlocutor o que antes só estava dentro de nós. Uma resposta, um convite, uma mensagem de Whatsapp, uma pergunta. É neste instante que saberemos se o que entregamos é uma joia ou um falso brilhante.
Comunicar, conversar, transmitir pensamentos seriam ações muito mais simples se não tivéssemos o desafio de viver em sociedade. Quem não entende o que está sendo dito, expressado, comunicado é sempre “o outro”. De quem é, afinal, a responsabilidade nesta troca? Qual é o objetivo da comunicação?
Acredito que seja importante relembrar que temos dois ouvidos e uma boca, mas, na contramão do dito popular, temos falado o dobro e escutado nada. Ou, quase nada. Na hora de expressar um sentimento, uma ideia ou um desejo, eixamos de lado a possibilidade de escolher, entre as mais de 400 mil pedras que temos em nosso idioma, e que são verdadeiramente preciosas optando pelos refugos.
Obrigada. Sinto muito. Desculpe-me. Você é importante para mim. Seu trabalho está lindo. Você está se esforçando, persista que o resultado surge. Eu compreendo o seu ponto de vista e gostaria de oferecer mais uma perspectiva. Se avaliarmos as vitrines que são as redes sociais, é fácil perceber que palavras ou frases com este teor são escassas. Palavrões, xingamentos e desvalorização do outro são frequentes.
Regina Rapacci e Andressa Miiashiro escreveram sobre comunicação para o blog nas semanas anteriores (recomendo a leitura para quem ainda não o fez!). Regina traz a importância das perguntas e Andressa nos apresenta a Comunicação Não-violenta, ambas colocam como centro de uma interação a partir das palavras o Amor. Do que falamos quando falamos de conversas? De reciprocidade, de construir juntos, de humanidade, de reconhecimento, de calor que oferece a possibilidade de desenvolvimento – meu e do outro. De continuidade. De respeito.
O alimento que faz com que o bebê reproduza suas primeiras palavras, aprendidas no meio que o cercam, mas que tem como alvo os adultos responsáveis por seu desenvolvimento é o Amor. Sem ele, nós nada seríamos.
Falar de amor é urgente. E, como fazer isso?
A fórmula mágica não existe, o que existe é a motivação interior de alcançar o outro. De estar junto, seja esse outro quem for. Pode ser alguém que prefira o azul ao vermelho, que escreva utilizando x e @, que jogue futebol de botão com o avô ou aprecie as poesias de Rimbaud. É reconhecer que, se tudo o que está ao seu redor exige muito de você neste momento, acontece algo muito semelhante com a pessoa com quem você precisa se comunicar.
Poderia dar o nome a este ideal de fórmula de “utopia”, mas depois que descobri que esta palavra foi inventada por um inglês, utilizando palavras gregas para designar um não-lugar, percebi que a própria palavra não expressa o que podemos buscar. Harmonia faz mais sentido. Buscar meios de encaixar, de combinar me parece mais adequado. É um exercício constante e possível, exige esforço, comprometimento e reconhecimento de que, o encontro que acontece entre duas ou mais pessoas extrapola os indivíduos, é algo divino. São seres espirituais vivenciando a mesma experiência material. Eu Superior diante de outro Eu Superior.
PS: Conseguiu identificar quem falou, cantou ou escreveu as citações mencionadas?

Sylvia Beatrix
Aconselhadora Biográfica mercurial que resolveu empreender e agora coordena a agenda de encontros e eventos @nacasadasyl tem buscado ser jupiteriana nas conversas que tem pela vida, adora o sol, mas às vezes vive no mundo da lua.

sábado, 24 de agosto de 2019

Meu bem, meu mal


Estamos chegando à época de Micael. E, nesse momento, somos levados a nos deparar com a reflexão sobre a luta com o dragão.

'Dragão é uma feliz imagem encontrada por Lex Bos para referir-se às ameaças' com as quais nos deparamos que nos impedem ou dificultam realizar o que é necessário.

Por isso mesmo, esta época nos convida a refletir mais sobre nossa coragem para enfrentar as batalhas internas e externas com o mal.
E o que podemos reconhecer como 'mal'?
Como diz uma velha máxima: o mal é o bem no lugar e hora inadequados. E, exemplificando: "imaginemos estarmos lidando com um excelente pianista e um excelente técnico de piano, ambos perfeitos a seu modo. (...) Se, porém, o técnico se pusesse a martelar na sala de concertos em lugar do pianista, estaria então no lugar errado. O Bem se converteria, assim, no Mal." (O Maniqueísmo, R.Steiner)
Por si só, essa, parece ser, uma maneira desafiadora de olhar para o mal.
Por isso trarei outros exemplos, como uma certa história em que um reino vivia ameaçado por um dragão que surgia de tempos em tempos. Como ele já era esperado e temido, trataram de construir abrigos para se proteger das labaredas, que no entanto, continuava  incendiando toda sua produção, impedindo-os de progredir. Surge, então, um valente cavaleiro disposto a acabar com o problema. E, entre as voltas que dá, ele consegue um acordo com o dragão, e a partir daquela data, ao invés de incendiar aleatoriamente, o dragão - que também tinha seus problemas -  focará suas labaredas no lixo do reino, que então vê duas questões solucionadas e depois disso o reino prosperou por muitos e muitos anos.
Além desse exemplo, vamos lidar com aquele conto que diz que um sábio, pede ao seu discípulo,  depois de visitar uma família pobre, que, parcamente, se mantinha  com a produção do leite de sua vaca, que a jogasse no precipício. Algum tempo depois o discípulo volta para verificar a situação da família e percebe que após a 'perda' da vaca, a família buscou novas alternativas e conquistou melhores condições de vida.
Quais são as perguntas que podem surgir dessas passagens sobre o 'mal' ?
Nossa jornada está repleta de desafios a serem transpostos, enfrentados e superados.
A luta entre o Bem e o Mal é uma história muito antiga e, para tornar mais leve, embora não menos profunda, podemos resgatá-la em vários contos, como os de fadas,  e através da leitura ou contação dessas histórias,  darmos a oportunidade para atuar sobre áreas sensíveis do nosso Ser, trazendo o fortalecimento interno, sutil e eficiente, para encarar essas batalhas e superá-las.
Embora nossa maior facilidade seja reconhecer o mal no outro, do lado de fora, nas injustiças que sofremos, para além de nós, não podemos fechar os olhos para aqueles dragões adormecidos no mais íntimo do nosso ser, que embotam nossos sentidos e percepções e sabotam nosso desenvolvimento.
Quando nos colocamos à mercê dos acontecimentos, 'se deus quiser', 'se tiver sorte', 'se o fulano mudar de ideia', 'se beltrana mudar seu ponto de vista', 'se cicrano não tivesse feito'... nos colocamos num lugar impotente, ou seja, sem a potência da transformação. Isso não quer dizer que temos condições de mudar o mundo, mas temos a potencia de transformar como ele chega até nós. Temos a possibilidade de extrair dessas vivências algo que nos fortaleça.
Não vamos fazer de conta que o mal não existe, que forças adversas são fáceis de lidar. E, por isso mesmo, precisamos de coragem para enfrentar esse assunto.
Como podemos fortalecer nossa coragem?
Aprender a lidar com o que há de sombrio em nós para que cada vez estejamos mais corajosos para enfrentar o externo talvez seja a construção que nos torne capaz de pensar o bem, sentir o bem e fazer o bem para criar um mundo com menos violência, menos intolerância, mais respeito, mais solidariedade, mais compaixão, mais amor. 
Afinal, todos ansiamos que essa centelha luminosa e calorosa do amor seja cada vez mais presente e próxima. E somos responsáveis pela criação dessa oportunidade. 

Olivia R S Gonzalez
aconselhadora biográfica, terapeuta corporal e terapeuta floral.

sábado, 1 de dezembro de 2018

O AMOR E O IMPULSO DO CRISTO


“O amor é o calor que aquece a alma”
                                          Nando Reis
Os atos de amor que nós praticamos devem estar, intrinsicamente ligados, ao Impulso do Cristo.
Mas o que significa este impulso quando a humanidade estava em perigo em relação à sua evolução, pois havia se voltado para as forças egoístas Luciféricas, o próprio Cristo, Ser Divino vem a Terra e realiza o grande ato de Amor físico – espiritual puro e sincero voluntariamente, o Mistério do Gólgota, ou melhor, sua condenação à morte por cruz injustamente.
Este ato de Amor que fluiu do Cristo permitiu novamente que a humanidade pudesse voltar ao caudal da evolução, mas para isso ela também tem que praticar atos voluntários, a partir deste Impulso do Cristo, realizar atos de Amor em plena liberdade sem exigir compensação.
Estes atos de Amor quando praticados por nós seres humanos, a partir deste Impulso do Cristo, geram no Mundo forças criadoras, germinativas que ficam no devir Cósmico Espiritual.
Assim, tais atos não podem ser levados por nós entre a morte e o novo nascimento para compensação em uma nova existência, a partir desta sabedoria, que está inconsciente na mente e no coração dos homens,  fundamenta a falta de atos de amor no mundo.
O Mundo hoje é carecedor de Atos de Amor, pois todos nós queremos praticar tais atos, mas também queremos a sua contrapartida, isto é, nós somos ainda, passados mais de 2000 anos do Grande Ato de Amor do Cristo, egoístas.
Mas como podemos identificar estes atos de Amor a partir do Impulso do Cristo?
Uma pessoa que nada sabe sobre os Evangelhos, nem tampouco sobre o Mistério do Gólgota ou Cristo, mas que tem plena consciência que quando pratica um ato em liberdade, seja em que âmbito da vida for, e não esperar a devida compensação, sem vislumbrar vantagens no seu futuro, esta pessoa pode ser chamada de verdadeiro Cristão, pois praticou o ato em consonância com o Impulso Crístico, um ato de Amor.
Não podemos praticar atos a partir de um peso, uma obrigação ou compensação, mesmo em nosso trabalho cotidiano, trabalhamos para receber um salário, ou podemos empregar o Impulso do Cristo nos nossos afazeres profissionais e domésticos, e realizá-los a partir do amor que empregarmos e sermos verdadeiramente Livres.
Como disse Rudolf Steiner em seu livro A Filosofia da Liberdade, “Viver em amor com as próprias ações e deixar viver em plena compreensão da vontade alheia é a máxima dos homens livres.” E também na GA 143; O amor e seu significado no mundo, “Cristo, que surgiu dos mundos espirituais, uniu sabedoria ao amor; ele superará o egoísmo, pois esta é a sua meta. Mas o amor deve ser oferecido independentemente, livremente, de ser para ser:”
Assim, devemos nesta época da alma da consciência, praticar cada vez mais atos a partir deste Impulso de Amor, isso é uma meta de desenvolvimento, para que alcancemos a que somos destinados a ser: Espíritos da Liberdade e do Amor, e faremos parte da 10ª Hierarquia Celeste.
Por fim, o Apóstolo Paulo deixou em sua Primeira Carta aos Coríntios, no capítulo 13, uma verdadeira oração para dizer o que é esse Amor que fluiu a partir do Cristo e finaliza com o seguinte verso: “Portanto, agora existem estas três coisas: a fé, a esperança e o amor. Porém, a maior delas é o Amor.”
Para ilustrar o tema, um verso:
SERENIDADE
Estar firme
Quando tudo mais balança
Ser bom, ser puro
Como a pureza da criança.
Nos novos tempos
De tantas crises e inseguranças,
Manter a imagem do homem
Viva, limpa, imaculada,
Semelhante ao Pai Criador.
Lutemos com o impulso do Amor,
O mundo está precisando de nós.
Jovina Rulli Bovino


Rita Paula Wey Nunes da Costa

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Eu sou amor


Eu. Eu sou. Eu sou eu. Eu sou o resultado sagrado de uma boa, bela e verdadeira escultura Divina. Eu sou intocado nesta sacralidade. Eu sou a individualidade que trago no coração os liames Divinos. Eu sou aquele que precisa aprender caminho afora que o haurir o Divino do coração é tarefa árdua, que exige passos fundos, calor inquietante, determinação inquebrantável. Eu sou o ser que vinculado ao todo percorre os caminhos do cosmos mobilizado pelo dever de ser finalmente LIVRE. Eu sou a liberdade de escolher o caminho da liberdade. Eu aprendo que preciso prosseguir para o infinito. Eu compreendo que todos são livres neste caminho do libertar-se a cada momento. Eu me liberto dos medos e ilusões a cada passo que dou vinculado na consciência de mim mesmo com todas as conexões que inexoravelmente trago de tantos e tantos caminhos percorridos. Eu sou a força do mar, a fúria do vento, a brandura do pássaro voando no ar, a insinuante presença do peixe nas profundezas das águas do oceano, o calor que brilha no sol, o olhar do felino que define seu alvo para sobreviver, a sorrateira presença do réptil que se desliza junto à sua leveza firme, a respiração que a longos haustos inspira e expira o dentro e o fora, a magia da terra que desabrocha a partir de si toda a semente que sempre se renova, as raízes que no subterrâneo se entrelaçam para se fixarem melhor e fortemente, escolhas que me direcionam caminhos adentro rumo ao necessário aprendizado que é requerido para a evolução, para a transformação do chumbo em ouro.
Eu sou a capacidade de assumir sair do velho, do pretensamente acomodado, e que adentrando-me no novo, resgato o quê de repouso tornar-se -á movimento e que de estagnado transformar-se-á no renovar-se de mim mesmo e do outro.
Eu sou único nesta inteireza ímpar e perfeita porque eu sou originário da Fonte Divina. Eu sou único dentro do multiplicar-se dos outros que se somam à minha presença, enquanto que eu me expando aos outros nos quais também eu sou.
Eu sou o conhecimento do pleno que vive em mim. Eu sou a sabedoria que a mim é direcionada perene e eternamente. Eu sou luz que de tão intensa perdura e emana-se adiante sempre.
Eu sou o crescimento do impulso do integrar-se. Eu sou união. Eu acredito na força do ser na ausculta do silêncio que habita a inquietude.
Eu sou a música das esferas que ressoa vibrante por entre todos os entes dos universos transportando toda a vida que Eu Sou.
Eu Sou Amor.


Ana Maria Silva
Médica - CRMSP 60182

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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

O esconderijo do amor


Escrever sobre o amor em tempos de cólera é uma tarefa que o adjetivo simples não pode ser usado para descrever. Fernando Pessoa, Clarice Lispector, Tom Jobim jamais teriam imaginado que o tema de seus poemas, livros e letras seria tão sufocado em tempos modernos.

Sentada no deck do Centro Paulus, cercada pelo resistente verde da Mata Atlântica, no extremo sul da cidade de São Paulo, o vento sopra e uma leve chuva amarela cai sobre mim. São as flores da sibipiruna que chamam a minha atenção, desviando o meu pensamento do assunto que me permeia neste momento: criar um texto.

Diante de tanta aridez no uso das palavras escritas ou faladas, comecei a procurar onde teria se escondido essa palavra formada apenas com quatro letras, profunda e genuína em seu significado e expressão, mas tão maltratada nos últimos tempos.

Comecei fazendo uma pequena retrospectiva biográfica, passeando pelos meus setênios, relembrando encontros e vivências. Quando foi que reconheci este sentimento em mim pela primeira vez? Diversos momentos foram relembrados. O calor da casa paterna, a primeira professora, as paixonites de adolescência, as companheiras de quatro patas, as amizades que conquistei, os livros que me fizeram sonhar. Todas essas lembranças aqueceram o meu coração, reconheci o amor em cada uma delas, mas duas lembranças me fizeram sorrir de uma maneira especial e aqueceram a minha alma. Os nascimentos de meus filhos, Camilla e Tiago, foram para mim os marcos mais importantes em relação ao amor. Porém, é óbvio demais escrever sobre o amor materno, pensei, nem todas as pessoas se identificam com esse tipo de amor por terem escolhas de vida diferentes, é melhor ampliar meu campo de pesquisa e buscar algo mais universal, disse a mim mesma.
 Abri o computador, digitei as quatro letras e milhares de opções surgiram à minha frente. Para ser mais exata, foram 1.030.000.000 de opções. Surpreendente, mas qual a qualidade desses resultados?

 As primeiras opções estavam relacionadas à casos amorosos de famosos do momento. Nosso querido Vinícius de Moraes já havia dito que seja eterno enquanto dure, mas preferi deixar esses amores fugazes de lado e busquei mais emoção e durabilidade.  É fácil perder a cabeça e o foco na busca pelo amor na profusão de páginas que se apresentam sobre o assunto. Letras de música, títulos de filmes, igrejas, ofertas de produtos, palavras de ordem (mais amor por favor), trabalhos de mestrado, páginas de encontros virtuais, etc. Em cada uma das páginas visitadas lê-se a palavra, mas é difícil reconhecer o sentimento. Ele não está lá. Resolvi dar um passeio pelas músicas. É fogo que arde sem se ver, que mexe com minha cabeça e me deixa assim e que, quando falta, é avião sem asa, fogueira sem brasa, futebol sem bola ou Piu-Piu sem Frajola. Cada melodia uma emoção, cada poesia uma forma delicada de expressar com palavras aquilo que se sente no coração. 


Continuei pesquisando e senti um frio. Comecei a ter a sensação de que o sentimento estava desgastado. Eu estava buscando lógica para escrever sobre um sentimento? Algumas páginas apresentaram o amor como moeda de troca e alguns estudos buscam comprovar que este sentimento é uma construção social ao longo da história a serviço das posses, do poder, do controle, etc. Seco demais, pensei, nem tudo tem que ser selado, registrado, carimbado, avaliado, rotulado como cantava Raul Seixas.
Parei de pesquisar e comecei a observar.

Eliana acaba de se tornar avó. Com um sorriso que aquece os que estão ao seu redor, exibe numa tela de celular, as bochechas rosadas de seu neto. Vanessa, imersa num curso de autoconhecimento, envia uma mensagem de apoio ao seu filho que irá participar de uma competição de judô. Um grupo de pessoas se organiza pela internet para um mutirão de limpeza do recém plantado largo das Araucárias, nas proximidades do Largo da Batata. Tiago atravessa a cidade por duas horas para abraçar e beijar sua namorada. Camilla está em uma foto envolvida pelo terno olhar de Raphael. Luciana sai de seu apartamento e oferece um prato de comida para o senhor que dorme na rua em frente ao seu prédio. Deborah trança os cabelos de seu amigo e decora com uma pequena flor. Um grupo de formação em Aconselhamento Biográfico é acometido por uma virose e o cuidado de cada um, consigo e com os demais, cria um ambiente de pura expressão amorosa. O amor é múltiplo na forma de expressão, pode ser, solidariedade, companheirismo, vínculo, afeto, compaixão ou um simples abraço.

Alguém em algum lugar recebe uma chuva de flores amarelas e reconhece que, mesmo em tempos de cólera, o amor não se esconde, está em todos os lugares, vivo, pulsante e pode ser sentido em cada pequeno gesto de atenção, carinho e zelo que nos rondam a todo o instante.

Sylvia Beatrix Pereira
Aconselhadora Biográfica


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

A gênese do amor

Falar sobre o amor não é tarefa fácil, até porque é um sentimento que efetivamente não sei se já nasceu dentro de mim. O que é o amor? Como buscar um significado para esta palavra em princípio tão abstrata. Para tentar chegar à gênese do amor fui buscar amparo nos poetas, nos filósofos, nas religiões, sociólogos sem deixar de me lembrar das pessoas de natureza humilde, distantes da academia, que encontrei ao longo da minha vida e que me comoveram com a profundidade de seus conceitos. Nesse contexto posso me arriscar a dizer que para mim, o amor é um sentimento que, mesmo sem saber definir, sei o que é. Mas como explicar isso? “O amor não se define, o amor se vive”, dizem alguns. Sim, pode ser. Mas como vivo algo que não sei o que é? E me pergunto de onde ele vem? Onde ele nasce se vive em nós? Como podemos ter a percepção do que é o amor se tantas são as definições? Ou se vivemos esse sentimento, como não conseguimos defini-lo com precisão? Por que em cada época da humanidade o “amor” pode ser conceituado de forma que atenda às percepções daquela sociedade, se é algo que está intrinsecamente em nós?

Socorrendo-me do poeta Carlos Drummond de Andrade, aproveitando a data do seu natalício (31/10), trago os versos do poema As Sem-Razões do Amor:” Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga. Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários. Eu te amo porque não amo bastante ou de mais a mim. Porque amor não se troca, não se conjuga nem se ama. Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo. Amor é primo da morte, e da morte vencedor, por mais que o matem (e matam) a cada instante de amor.”
Inspirada por esse poema, e especialmente nos versos “o amor é estado de graça ... amor é dado de graça...” fui buscar na Antroposofia, o pensamento de Rudolf Steiner, o que por si só não é um caminho muito tranquilo. Como vem fazendo desde o meu primeiro contato com seus textos, Steiner tem descontruído muitas das minhas crenças sobre os poderes de Deus. Diz Steiner, in O amor e seu Significado no Mundo: “Deus é amor puro, amor sincero e não sabedoria e poder supremos”. Sendo Deus o Amor, este impulso flui para a humanidade pronto, como uma dádiva e nós, seres humanos, podemos capturar esse impulso de forma gradativa. Assim, amor é o fundamento de tudo o que vive, por essa razão sinto que o Amor é, ainda que não consiga traduzir em palavras o seu real significado. Amor é, portanto, esse impulso que se encontra à disposição do ser humano para ser experimentado, vivenciado quando este desejar caminhar as trilhas do aperfeiçoamento espiritual.

Um outro aspecto do amor, na visão do pai da Antroposofia que reverberou fortemente em mim é que o amor “não desperta esperanças para o futuro, e sim liquida as dívidas do passado”, e só quem compreende o amor dessa maneira é um cristão, ou seja, compreende o que significou o Mistério do Gólgota, que é um assunto dos deuses, que estes nos permitiram assistir. Nossa, a partir daqui meu mundo se colocou de cabeça para baixo! E prossegue Steiner: “Este é o único ato terreno totalmente suprassensível; portanto, não se deve estranhar se os que não creem no suprassensível não creem de forma alguma no ato do Cristo”. Foi nesse momento, quando se abre esse portal, permitindo ao homem assistir a um ato divino que chegou o amor ao mundo, através desse impulso crístico. A Antroposofia traz para o conhecimento humano a jornada do homem em sua chegada na Terra, isto é, como ser espiritual, foi adensando sua forma física, até que em determinado momento os deuses que participavam dessa jornada, num encontro com Lúcifer, entregaram a este a sua onipotência. Esse ato possibilitaria ao homem ser livre. Nesse encontro, nesse momento o homem entra na matéria mais que estava programado, distanciando-se dos deuses que estavam em ascensão. Por esta razão, num conselho de deuses, Cristo se disponibiliza a recuperar os homens. Resumidamente este, para quem acredita minimamente no suprassensível, no metafísico, é o maior ato de Amor. E por esta razão, no meu humilde entender, podemos de todas as formas tentar buscar o significado da palavra amor, e só conseguiremos tangenciá-lo se percebermos que “surge o amor por algo que está dentro de nós mesmos”.

Finalizando, obviamente com Drummond, deixo novas perguntas:
   “Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar? amar e esquecer, amar e malamar, amar, desamar, amar? sempre, e até de olhos vidrados, amar?   Que pode, pergunto, o ser amoroso, sozinho, em rotação universal, senão rodar também, e amar? amar o que o mar traz à praia, o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha, é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?   Amar solenemente as palmas do deserto, o que é entrega ou adoração expectante, e amar o inóspito, o cru,
um vaso sem flor, um chão de ferro, e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina. Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor a procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor,
e na secura nossa amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.” (Amar)

Tereza Racy
É jornalista, mãe de ex aluna waldorf  e membro do Conselho deliberativo da Escola Waldorf Francisco de Assis 

Tema de Reflexão do Mês

Escolhemos um tema como base de reflexão que será iluminado por profissionais de diversas áreas segundo seu olhar e suas vivências. Colaborações e comentários são bem vindos!

Iniciativas Antroposóficas na ZN

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Projeto Médico Pedagógico e Social Sol Violeta (PMPSSV)

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