domingo, 30 de setembro de 2018

O despertar da alma infantil para o mundo



No 1º setênio, de 0 a 7 anos, a criança ainda é puro produto da sua hereditariedade.
Ao dar entrada no 2º setênio a partir dos 7 anos, com a troca dos dentes de leite, corta-se o cordão umbilical com a mãe, iniciando de forma mais profunda a encarnação e a individuação do corpo vital.
Se antes o nascer era do corpo físico, nessa fase o que nasce é o corpo emotivo.
É a fase do desenvolvimento do sentir. O foco está no amadurecimento do sistema rítmico, pulmão e coração.
Inicia-se o despertar para o mundo.
A criança não é mais só esponja que absorve e inspira o mundo. Agora ela também expira no mundo a partir do seu mundo interno.
A característica desse setênio é a troca.
Há forças entrando e saindo há todo momento. Inicia-se uma troca entre mundo interno e mundo externo.
A relação eu e você, você e eu, começa a se formar.
A criança passa do lugar mais quentinho e protegido que é a sua casa e a relação com os pais, para experimentar novos espaços e relações na escola com o professor e com os amigos.
Ao ir mais para fora, a criança também passa a enxergar as incoerências e contradições da sua família e do mundo, se deparando com confrontações e desafios.
No seu processo de individuação e formação do seu mundo interior, começa a formar o seu temperamento e incorporar condicionamentos.
É nessa fase que cristalizamos nossas crenças, as verdades nas quais passamos a acreditar que vão formar a lente pela qual enxergamos o mundo.
A partir das nossas trocas, do que passamos a escutar e experienciar, vamos formando verdades como o que é ser homem e mulher e como cada um deve se comportar, por exemplo, “meninos não choram” e “meninas devem saber cuidar”.
Essas crenças e os condicionamentos passam a ficar incorporados no nosso corpo vital, que é o corpo da nossa memória, tornando-se difícil posteriormente a transformação dos mesmos.
Quando a criança é criada de forma mais rígida nesse período ela pode passar a só inspirar e ter mais dificuldade para expirar, tornando-se uma criança mais introspectiva.
E no lado oposto, quando não há limites, só expira e não inspira, a criança poderá se tornar um adulto muito extrovertido, para fora, e com dificuldades para estar mais para dentro, se perceber e perceber o outro.
Este setênio é fundamental para o desenvolvimento psíquico posterior dos 21 a 42 anos, para a formação da nossa saúde emocional.
É importante estimular a criança a viver a beleza do mundo, acordar o seu pensar de forma imaginativa e a desenvolver sua apreciação.
É importante que também haja ritmo e momento para interioridade e exterioridade.
É importante que haja espaço para uma troca saudável entre o mundo interno e externo.
Que os pais e as outras autoridades amadas, como os professores, possam criar um campo cuidadoso para experimentação, sendo facilitadores desse processo de troca.
Que a criança possa ser respeitada em sua individualidade, como no seu temperamento, e que crenças mais expansivas possam ser desenvolvidas, permitindo diversas formas de ser e estar.

Marcela Lempé Madruga

Psicóloga, Coach e Facilitadora de Processos de Desenvolvimento Humano Apaixonada por autoconhecimento e experiências que ampliem a consciência

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Fora do dentro e dentro do fora


"Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro acorda"
Jung

"Se quiser entender o mundo,
 olhe para si mesmo, 
 se quiser entender a si mesmo,
 olhe para o mundo,
 o Eu é a ponte para o significado da existência."

Rudolf Steiner

Todos nós temos a tendência a nos vermos como que separados do nosso entorno, dos outros, dos eventos, enfim do que nos é exterior. Não nos entendemos como seres interligados e conectados, fazendo parte de um mesmo grande organismo, onde cada um de nós é uma pequenina célula do que chamamos de humanidade. Além disso não reconhecemos que o que acontece fora de nós tem alguma correspondência com o que acontece dentro de nós, são eventos pra nós estranhos, não nos dizem respeito. 
Conhecendo a Antroposofia tomamos consciência de que estamos todos entrelaçados num grande tecido e a separatividade é uma ilusão que para que possamos nos diferenciar e nos individualizar foi de certa forma necessária no processo de evolução da consciência humana. Afinal quando não consigo me diferenciar do todo não é possível o desenvolvimento da auto consciência. Porém chegou a hora de resgatarmos essa sabedoria e percebermos a conexão que existe entre o mundo exterior e o mundo interior. Se pertencem, estão em correspondência, sabendo ler o externo à nós saberemos o está dentro e muitas vezes de forma inconsciente. Um é reflexo do outro, e olhar o mundo exterior como o espelho de nossas almas às vezes é bem desafiante. O caminho do auto conhecimento tem suas curvas perigosas, neblina, cavernas e precipícios, mas também tem suas montanhas com vistas incríveis, seus lagos com águas cristalinas e momentos de curtir o vento nos cabelos... portanto olhemos pra dentro quando nosso entorno nos apresenta pessoas corruptas, egoístas, mentirosas. Olhemos pra dentro e com toda a sinceridade procuremos em que recôndito da nossas almas temos essas características em nós mesmos... olhemos as pequenas coisas do dia a dia. Não temos poder e talvez nem capacidade para transformar o nosso mundo exterior em um mundo mais justo e fraterno, mas a pergunta deve ser onde e como posso ser mais equilibrado, mais harmonioso e solidário nas minhas próprias relações? Estou tratando as pessoas, minha cidade, minha mãe Terra como amor, com delicadeza e fraternidade? É a partir dessa tomada de consciência, de cada um de nós, que o espelho pode começar a nos mostrar uma imagem diferente e mais bonita.

"Conhecimento verdadeiro de si próprio só é dado ao ser humano quando ele desenvolve interesse afetuoso para com os outros; conhecimento verdadeiro do mundo, o ser humano só alcança quando ele procura compreender seu próprio ser."
Rudolf Steiner



Cristina Campedelli Melchert 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O caminho interior e exterior






Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
a sabedoria e a virtude, a seu tempo,
florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
para, com coragem e sem lágrimas se
dar a outras novas ligações.
Em todo o começo reside um encanto
que nos protege e ajuda a viver
serenos transponhamos o espaço após espaço,
não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo.
mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
íntimos, ameaça-nos o torpor;
só aquele que está pronto a partir e parte
se furtará à paralisia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
nos lance, jovens, para novos espaços.
O apelo da Vida nunca tem fim …
Sus, Coração, despede-te e cura-te!
Degraus - Hermann Hesse


Pensar sobre o caminho soa como algo bastante pessoal, talvez um certo tom de pronome possessivo, de algum modo ancorado cá por aqui, nalgum rincão da nossa intimidade. Carrega uma sonoridade de ninho, preenchido de nuances de identidade intangíveis por algum outro. O caminho por vezes se apresenta como uma fatalidade que vem veloz ao nosso encontro, preenchido de mistérios em suas curvas.

Joan Manuel Serrat pavimentou um trecho dessa nossa jornada em busca de lago, ou de nós mesmos, ao nos dizer:

“Caminante no hay camino, se hace camino al andar,
Al andar se hace camino
Y al volver la vista atrás
Se ve la senda que nunca
Se ha de volver a pisar”

Nesses termos o caminhar se mostra mais concreto, conjugando o permanente vir a ser, vir a tecer do novelo da nossa vida. No caminhar se realiza o mistério do espaço/tempo como unidade, coexistem a origem e a chegada, o antes e depois, a memória e a imaginação. Os destinos passam sob nossos pés na mesma velocidade com que almejamos os horizontes do nosso tempo; pode ser vertiginosa a tomada de consciência do constante desprender-se e lançar-se nos degraus da vida, pode ser também refrescante saber-se livre para inspirar-se de novos ares do tempo, para novos mirantes e desafios de cada lugar a que se chega.
Caminhar é um ato volitivo ainda que, no andar corriqueiro, o façamos automaticamente, com a consciência dedicada a outras paragens da nossa alma. Tal como Goethe, que andava para compor o segundo volume do seu Fausto, acompanhado de redatores daquilo que as inspirações lhe traziam à fala, o andar pode ser um importante exercício para desobstruir veias criativas, meditar ou simplesmente respirar das tarefas cotidianas. No entanto trato aqui o caminhar numa escala diferente da do simples andar.

Conquistar o andar é um dos preciosos milagres da infância. O esforço dedicado por uma criança para dar os primeiros passos é digno de alimentar almas adultas para qualquer tarefa que tenhamos, por mais dura que nos pareça. Lançar uma perna ao futuro e permitir que ele nos encontre; sustentar uma perna no passado, com todo o peso do corpo sobre ela, ainda que a consciência já esteja mais entusiasmada pelo adiante; pensar conscientemente no andar talvez dificultasse muito essa conquista que, passo a passo vai ganhando mais liberdade e se tornando um gesto que pode ser realizado com a consciência vigilante entregue a outras questões.

O caminhar, no entanto, pode ser entendido como uma espécie de esculturação de trilha, modelada por nossas escolhas, por cada julgamento, por nossos ideais de vida. As situações da nossa vida, entretecidas pelas redes de relações e lugares, vem em nossa direção, na medida em que caminhamos. Eu encontro os desafios, os obstáculos me encontram. Somos recorrentemente convidados a refazer nossas ferramentas de esculturar essa trilha, chamados a rever nossas faculdades de julgar, escolher e atualizar nossos ideias, perante essa concretude dos fenômenos.

Enquanto esculpo meu caminho, o caminhar me modela. Ser no mundo é saber-se em construção e contemplar a dinâmica dos lugares vindo a ser aquilo que dele fazemos.

Viver numa grande cidade, como São Paulo, é uma experiência de desenraizamento constante. A cidade se refaz muito depressa, mais rápido do que o tempo do despedir-se de lugares e relações com as quais nos identificamos. Os outros ao nosso redor são tantos, que não há tempo nem alma suficiente para cultivar interesse por todos, o bairro se remodela em função de um novo empreendimento ou rearranjo viário e, quando recobramos a consciência, o que era sólido, se fluidificou no tempo. Parece não ser possível se enrijecer numa cidade tão dinâmica! Entretanto, a falta de contato verdadeiro, a desterritorialização passa a representar verdadeiros interditos de humanização. O cultivo de uma vida interior, de onde floresçam jardins mais seguros passa a despontar como necessidade de premência crescente.

As nossas paisagens interiores, cultivadas ao longo dos lugares e dos tempos, podem revelar as nossas velas e ancoras. Cenários e pessoas que por ela passeiam, quando revisitados com intencionalidade, podem nos revelar seguros passos para caminhar. No fundo, o caminhar interior, em medidas individuais, é reflexo singular dos percursos que realizamos no mundo. Revisitar essas paisagens interiores é uma liberdade que podemos conquistar e da qual podemos haurir forças de reconhecer-se no vir a ser que nos transforma.

Quando nasceram nossos ideias de vida? Em que idade e lugar tomamos as nossas decisões mais estruturantes, como carreira ou família? Quais bosques dessas nossas paisagens interiores seguem alimentando essas escolhas do passado? Quais atividades seguem presenteando nossas paisagens interiores? Deste mundo em que sou um construtor ativo, meus ideais mais caros estão sendo mobilizados e postos em prática ou estão aguardando bom tempo?
Vivemos viradas de tempos e renascemos para nosso próprio caminhar. Em diferentes escalas de intensidade, essas são situações que se repetem nas nossas vidas. Apesar das turbulências, reconhecer as transições é inevitável. Por vezes reconhecemos os sintomas dessas viradas, que se enunciam em sinais mais evidentes e, noutras, somos surpreendidos por rupturas que nos demandam maior coragem e força.

Vamos sendo enquanto caminhamos. Pelas veredas que transcorremos, nosso eu vai se tecendo como escultor. Nesses momentos de virada, um âmbito superior da existência pode apresentar, tal como um esteio sutil, direções a seguir. Em lampejos de clareza, ou insight, uma escala superior de nós mesmos se revela.

Estar atento a esses lampejos pode nos alçar a outros patamares desse caminhar. O autoconhecimento e o reconhecimento do mundo ambiente se entretecem como unidade. O eu sou se realiza no contexto que construímos e pelos quais somos transformados. Eu e o mundo nos interdeterminamos.

O caminhar no mundo, nos afazeres corriqueiros ou nas grandes realizações, quando preenchidos por intencionalidade consciente e por liberdade diante de dogmas religiosos, de rígidos trilhos científicos ou de paixões ideológicas, espiritualiza as pegadas que ficam, passo a passo, marcadas no mundo. Nos deparar com outras pegadas, tal como obra de arte cocriada entre a humanidade e os demais elementos da natureza, a que passamos chamar de paisagem, nos inspira e desperta para os milagres dessa grande lemniscata. Passado e futuro, paisagens interiores e exteriores, destino e liberdade são dualidades que se manifestam como unidade fenomênica, quando nos dedicamos a esse caminho de autoconhecimento.

Caminhar em liberdade, cultivando as paisagens interiores, espiritualizando os portos em que dedicamos vida em obras. Aprender a transpor o torpor do conforto, do enraizamento, da paralisia dos hábitos, para viver o novo. Não furtar-se, entretanto, de estar pleno em cada fazer, em cada estar, pela eminencia da transitoriedade do tempo/espaço, vivendo no sonho do tempo propício, do lugar ideal. O apelo da vida nunca tem fim.


 Leandro Evangelista Martins

quinta-feira, 6 de setembro de 2018

A transformação do sentir dos 7 ao 14 anos


          Com a chegada dos 7 anos e a troca dos dentes a criança entra numa nova fase da vida. As forças que trabalharam muito no corpo da criança pequena agora se colocam à disposição do pensar. A criança está mais ágil nos movimentos, perdeu aquele tronco roliço da criança pequena e agora está aberta a um novo mundo, cheio de expectativa pelo que virá. A criança, que até agora aprendia sobre o mundo pela imitação, vai aos poucos deixando essa qualidade e ganhando outra conotação, a de representação pictórica, a de reflexão e associação das percepções. A atividade interior é intensa e extremamente rica, onde as imagens atuam criando o que chamamos de fantasia, imaginação.
          A criança dos 7 anos se interessa pelo mundo, pelo que contam a ela, em especial pelas imagens conceituais, pelas belas histórias. O papel dos contos de fadas é de suma importância nesse primeiro período. A criança ganha também a qualidade de saber recontar o que ouviu. A criança agora está apta para a aprendizagem formal, conhecer o mundo da escrita e da leitura, dos números. Podemos dizer que esse período dos 7 aos 9 anos forma um bloco, uma unidade, em que a criança tem muita vontade de fazer, respeita o professor, que goza de autoridade ilimitada. Esse caminho deve ser suave, adequado ao pensar que está em pleno desenvolvimento. A memória passa a ser treinada também. Assim, aos poucos, a criança vai se desligando da vida infantil, e ao passar por uma metamorfose no âmbito dos sentimentos vai experenciar agora um novo âmbito, que ao redor dos 9 anos vai ficar aparente.
Podemos, ainda, pensar na criança da fase dos 9 aos 12 anos, quando nova transformação ocorre na criança para com o mundo. Agora aquele mundo dos 3 primeiros anos escolares lhe parece infantil demais e aparece a crítica. Chamamos de rubicão, a fase que a criança dos 9 anos experiencia. Ela sai daquele “paraíso” infantil e através da objetivação de seu pensar, vivencia a solidão, o medo, a relação com a morte, como um problema. Novas sensações chegam e com ela um pensar crítico. Há também um agudo senso de observação. Ela se vê fora do mundo e não mais una com ele, como era até então. É nessa fase a vivência da natureza, seu maior aliado e “alimento”. A criança tem um olhar aberto para a natureza e assim se satisfaz imensamente quando contamos a ela coisas sobre esse ambiente. O caminho da história da humanidade, os primeiros povos, seus mitos de origem também encantam e trazem um efeito sanador a todos esses conflitos internos. Isso vai se acalmando aos poucos e se transformando no decorrer dos próximos anos.
No período dos 12 aos 14 anos, que chamamos de pré-puberdade, vivenciará nova transformação do seu ser, em que a forma de se relacionar com o mundo se modifica novamente, parece que toda aquela vontade que antes identificávamos nela agora se direciona a pontos específicos de seu interesse, em especial o interesse de conquistar o mundo. Junto com esse sentimento, muitas vezes percebemos uma maior agressividade, em especial nos meninos, que mostram prazer em brincar de agressão. O que importa é vivenciar a vontade, o impulso. Também os meninos formam grupos, se separam das meninas e tendem a desprezá-las nessa idade. Elas também formam grupinhos, porém a ânsia de conquistar o mundo para elas acontece de forma mais interior, com sonhos. Elas começam seu desenvolvimento fisiológico mais cedo, crescem, e suas forças parecem ser absorvidas pela maturação corporal, o que traz uma diminuição de seu desempenho objetivo e mostram-se cansadas mais facilmente. A chegada da menarca faz a vitalidade parecer retornar, assim como as situações de intempestividade dos ânimos se acalma novamente. Enquanto a menina experimenta a diminuição de sua energia, o menino explode em vitalidade, parecendo precisar se livrar do excesso de forças, seja em atividades planejadas, seja em atrevimento. Este menino é mais realista em sua visão com o mundo, quer conhecê-lo com as mãos.
Podemos concluir assim que, durante este segundo setênio, a criança passou por uma transformação do pensar, sentir e querer dentro do âmbito fechado da própria personalidade. Ao adentrar a puberdade, no que chamamos de terceiro setênio, o jovem, que passará por um turbilhão de transformações no âmbito da corporalidade, da maturação sexual e dos sentimentos, iniciará um sutil processo de desenvolvimento social da alma, quando o adolescente precisará posicionar-se no mundo e atuar nele ativamente, através de seu próprio interior.

                    Carla Guedes
                    Professora de classe da EWFA

                    Psicopedagoga e terapeuta de Extra Lesson

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

A CRIANÇA DO SEGUNDO SETÊNIO



 O segundo setênio corresponde ao segundo período de sete anos da vida do ser humano, que vai dos 07 aos 14 anos.
Ao nascer o bebê se separa do corpo físico da mãe, mas ainda se mantém ligado ao corpo vital ou etérico dela. Por volta dos 07 anos, ocorre o evento da expulsão dos dentes de leite e também, em um nível mais sutil, a separação agora do corpo vital ou etérico de sua mãe.
É o setênio em que vai desabrochar e amadurecer o Corpo Etérico individual da criança. É agora que hábitos e costumes se formarão, sendo inscritos em seu próprio Corpo Etérico. Então, Ritmo é a palavra mais importante para a criança agora.
Se no primeiro setênio a percepção do bebê sobre o mundo é que ele é bom, agora a criança dos 07 anos começa a perceber a beleza do mundo. Esta é a tônica deste período.
A encarnação se aprofunda um pouco mais e começa a aparecer o Temperamento predominante que a criança carregará por toda a sua vida, que está ligado ao Corpo Etérico dela. Nesta fase ocorre o amadurecimento dos órgãos rítmicos - coração e pulmões. Podemos chamar este setênio, portanto, de época da troca, entre o que entra com a inspiração (vivência de interioridade) e o que sai com a expiração (vivência no mundo externo).
Agora aquela criança do primeiro setênio que estava dentro de casa, com a família, alcança o mundo social - sua escola. E, no lugar da mãe, entra seu professor. Portanto, a vida social passa a ter muito mais importância do que no setênio anterior.
Uma transformação importante acontece neste setênio – o PENSAR começa a ser mais imaginativo e o SENTIR se interessa agora pela atividade artística e pela religiosidade existente no mundo, na natureza.
Como a criança deste período ainda não é um ser completamente individualizado, nesta fase ela anseia por encontrar pessoas com as quais sente afinidade anímico-espiritual. Seu Corpo Etérico ainda não está bem plasmado e seu Corpo Astral ainda está envolvido e não se manifesta plenamente. Ela busca no grupo informações para suprir seu organismo intelectual que ainda não se desenvolveu, sensibilidades para incorporar através da arte e de seus sentidos, que anda estão engatinhando.
Portanto, agora temos uma janela de oportunidades de nutrir a alma da criança com beleza, boas imagens, esperança, informações sensoriais sensíveis, amizade, confiança, bons exemplos, justiça. Tudo que a criança incorporar nesta fase ficará inscrito em seu Corpo Etérico, o corpo da memória.
Assim como até os sete anos de idade a criança deve ter bons exemplos físicos para serem imitados, agora seu ambiente deve conter tudo o que possa orientá-lo por seu valor intrínseco e seu sentido. Daí a importância, para a criança desta fase de ter à sua volta mestres e personalidade cuja maneira de ver e julgar o mundo possam despertar nele as forças intelectuais e morais desejáveis.
Palavras mágicas para a educação no segundo setênio: aspiração a ideias e autoridade. A autoridade natural, não imposta, deve constituir a evidência espiritual imediata para que a criança deste setênio forme consciência, hábitos e inclinações e discipline seu temperamento, com cujos olhos ele observa o mundo. Valem principalmente para essa idade as belas palavras do poeta: “Cada um deve escolher o herói a quem pretende imitar em sua ascensão ao Olimpo”.
Veneração e respeito são forças que devem fazer crescer o corpo etérico de maneira sadia. Quando falta essa veneração, as forças vivas deste corpo se atrofiam. Imaginemos a seguinte cena e o efeito produzido por ela sobre um menino de, digamos, oito anos de idade. Alguém lhe conta algo a respeito de uma pessoa particularmente venerável. Tudo o que ele ouve lhe incute um temor quase sagrado. Aproxima-se o dia em que ele deve ter o primeiro encontro com essa pessoa. Ao pressionar a maçaneta da porta atrás da qual deverá aparecer o ser venerável, um tremor de respeito o invade. Os belos sentimentos gerados por semelhante experiência permanecerão entre as reminiscências mais duradouras da vida. Feliz é a criança que pode elevar seu olhar para seus mestres e educadores como autoridades naturais, e isso não apenas em alguns momentos excepcionais, mas durante toda a juventude!


Anahi Noppeney

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

A criança no Segundo Setênio


O segundo setênio da criança se inicia por volta dos 7 anos e se finda por volta dos 14 anos, é também  chamada a fase escolar da criança, nesta fase com a troca da dentição a criança tem seu corpo físico totalmente  individualizado,  amadurecem os órgãos, principalmente os do sistema rítmico, o coração e pulmão e nasce  o seu corpo etérico ou vital, proporcionando vitalidade própria, se emancipando do corpo etérico  da mãe e da sua vitalidade  no primeiro setênio.
 É um momento em que a criança passa por um processo de crescimento e desenvolvimento através da força da sua individualidade que encarnou, esta força atua até os 20 anos.
Neste setênio a criança aprende a ler o mundo, desenvolve a fala correta para poder conversar e assim se expressar na vida social.
Temos o desenvolvimento do sentir, a criança passa somente a fazer o que gosta o que motiva seus sentimentos. Podemos dizer também, que nascem as forças de simpatia e antipatia, assim a criança passa a julgar tudo a sua volta a partir destas forças, nasce um grande senso de justiça, despertando assim uma consciência moral, isso é importante para o desenvolvimento da avaliação do que é bom ou ruim, bonito ou feio. A partir das considerações expostas, os pais e educadores tem a tarefa de educar o sentimento, ensinar a criança discernir entre o bem e o mal.
A educação do sentimento deve ser desenvolvida a partir da estimulação de atividades artísticas de qualquer tipo, movimento, música, fala, canto, pintura, modelagem e trabalhos manuais, mas, não só em atividades dadas para a criança trabalhar, a observação de obras de arte de grandes mestres e  a contemplação da natureza, como o por do sol, ou nascer do sol, a vista do topo de uma montanha,  também cumprem o propósito de desenvolver o sentimento positivo a partir do olhar o belo no mundo.
Os professores devem pedir para as crianças lerem em voz alta textos e poesias, a fim de que a criança nesta fase desenvolva também a fala correta, e não deve apenas se fixar nos livros didáticos, pode usar assuntos atuais para estabelecer relações com as vivências dos alunos e tornando-se para eles uma “autoridade querida”, nesta fase de desenvolvimento da educação dos sentimentos, a criança tem que estabelecer uma relação de confiança e um ponto de referência firme com seus educadores, isso se refletirá na fase adulta a melhor expressão do seu EU, e também uma confiança em si mesmo.
Também é importante colocar a criança para executar tarefas domésticas, pois é muito importante desenvolver o sentimento da responsabilidade, a execução de trabalho em equipe e o senso de pertencimento na família, a criança  aprende a valorizar estas tarefas, mesmo quando executadas por outras pessoas, os pais que permitem essas atividades para seus filhos nesta fase os estão preparando para as atividades mais complexas que serão exigidas na idade adulta.
Muito importante salientar um ponto de transição que existe neste setênio denominado por Rudolf Steiner como “rubicão do desenvolvimento infantil”.
Mas como se dá essa transição?
Entre oito e dez anos, a criança deixa sua infância, seu mundo de fantasia, para trás, a partir de agora ela encarna no próprio corpo, passa a ser mais séria e voltada para seus próprios pensamentos, e percebe que tem um destino a cumprir nesta encarnação. A criança tem que decidir se avança em direção ao seu crescimento e cumprimento da meta encarnatória, ou fica presa na sua infância, portanto os pais e educadores tem a tarefa de mostrar confiança e segurança em suas vidas, para poder dar a ela o suporte necessário para  avançar  em seu desenvolvimento.
Observar também nesta idade com que brinquedos e brincadeiras a criança gosta mais de brincar, esta observação pode mostrar aos pais qual o talento da criança, e mais tarde pode ser a profissão que será futuramente escolhida. Por exemplo: a criança gosta de brincar de escolinha, dar aulas, ou para os irmãos menores ou para os amigos, ela monta a sala de aula, escreve na lousa de brinquedo, assim na fase posterior, que é a do terceiro setênio, ou da juventude, muito provavelmente este jovem escolherá seguir a carreira de professor.
Assim, a partir de um desenvolvimento saudável no âmbito do sentir, a criança estará mais preparada para a próxima fase, que é a do desenvolvimento no âmbito do querer, no terceiro setênio, com o nascimento do corpo astral.
Citando o Mestre Goethe “Não devemos moldar os filhos de acordo com nossos sentimentos; devemos tê-los e amá-los do modo como nos foram dados por Deus”. Portanto, à criança do segundo setênio deve ser dado um único sentido que o mundo é belo.”

Rita Paula Wey Nunes da Costa

Bibliografia:

Lievegoed,Bernard in “ Fases da Vida”, Steiner, Rudolf in “Curso de Pedagogia Curativa”, Goebel,Wolfgang–Glöckler,Michaela in “Consultório Pediátrico” e Gudrun Burkhard in “Tomar a Vida nas Próprias Mãos”.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

O DESPERTAR DOS SENTIMENTOS



Sete anos, queda dos dentes... marcam uma nova fase na vida da criança: começa o segundo setênio. Agora as emoções são o ponto alto na vida deste ser que pouco a pouco deixa a infância.
Nesta fase, dos sete aos catorze anos, ocorre um intenso desenvolvimento das qualidades do coração: sentimento, fantasia, emotividade... Tudo se desenvolve rapidamente. Inicialmente, o professor, o educador, mostram à criança as maravilhas do mundo que a cerca. Aos poucos ela irradia tudo o que vivenciou intensamente.
A pedagogia Waldorf sabiamente dedica este período não só ao conhecimento científico, mas também às artes, possibilitando ao aluno vivências de tudo aquilo que a humanidade descobriu e desenvolveu. Fazer este estudo traçando paralelos entre o Homem e os vários aspectos do mundo mineral, vegetal e animal permite entender e respeitar estes reinos como premissa da existência humana. Da mesma forma que a criança pode experimentar no primeiro setênio o seu corpo físico das mais diversas formas, agora ela pode experienciar o desenvolvimento da consciência humana através do estudo de diversas civilizações.
Duas grandes crises ocorrem durante este período. A primeira é a crise dos 9 anos quando a criança se percebe uma personalidade independente, quando deixa o mundo dos contos de fada. A segunda é na época da puberdade quando ocorre o despertar da sexualidade. Contar com o apoio do adulto que compreende as questões destes momentos possibilitará o equilíbrio, o desenvolvimento harmonioso e sadio da criança, do jovem.
A chave de ouro da educação durante o segundo setênio é o sentimento. Quem aprende a ver o lado belo da vida, quem aprende a respeitá-la, quem consegue admirar as pequenas maravilhas  do dia, torna-se mais consciente com a sociedade e com o ambiente em que vive, é mais otimista e mais feliz,  se envolve de corpo e alma em suas atividades retribuindo ao mundo com seu dom, com sua estética, com seus valores.


Elisabeth Koerrmandy

Tema de Reflexão do Mês

Escolhemos um tema como base de reflexão que será iluminado por profissionais de diversas áreas segundo seu olhar e suas vivências. Colaborações e comentários são bem vindos!

Iniciativas Antroposóficas na ZN

Escola Waldorf Franscisco de Assis (11) 22310152 (11) 22317276 www.facebook.com/EscolaWaldorfFransciscoDeAssis

Projeto Médico Pedagógico e Social Sol Violeta (PMPSSV)

Casa da Antroposofia ZN Rua Guajurus, 222 Jardim São Paulo (11) 35699600