quinta-feira, 10 de setembro de 2020

CORAGEM E BRAVURA

 


A palavra CORAGEM vem do latim, CORATICUM. 'Cor' significa coração e 'aticum' significa ação. Portanto, numa tradução literal, coragem significa "ação do coração".

Ponderar, do latim 'ponderare', é pesar, atribuir peso até equacionar as medidas, equilibrando-as. 

Assim, não é o espírito que deve estar a serviço do coração. Mas o contrário. É o coração que deve estar a serviço do Espírito.

Se colocarmos nosso espírito a serviço do nosso coração, podemos incorrer em erros, enganos, cegueira emocional. O mesmo ocorre se colocarmos nossa vontade à serviço do coração. 

Mas se ao contrário, colocarmos o nosso coração a serviço de nosso espírito ou força espiritual, teremos firmeza de espírito diante de uma situação difícil. Podemos depositar amor aos nossos pensamentos e ideias, deixando que esse amor seja ao mesmo tempo direcionado por um espírito guiado por sabedoria, o mesmo ocorrendo com a nossa vontade, que deve ser disciplinada e ponderada  pelo espírito ao receber a coragem do coração.

Amor e coragem. Dois sentimentos genuinamente gerados do coração, mas que não se confundem com o coração, que é instrumento, logo não são  sinônimos. Pois o mesmo coração que gera amor e coragem, também gera o ódio e o medo.

Tudo o que gera, vive por si mesmo, em plena potência. É potência em si. E tudo que é potência nasceu para continuar gerando, doando e servindo. Por isso o coração está no meio. Para doar-se e servir ao espírito e à vontade. É potência e tudo que é imanente, dá, doa e gera abundantemente. O que nosso coração  tem gerado abundantemente ao nosso espírito e vontade nesses tempos difíceis? 

O coração não manda. O coração serve. Onde o coração mandar, é porque deixou de servir. E um coração que não sirva aos outros, perde sua potência e seu sentido de existir. Um coração só deixa de servir, quando deixa de bater. 

Um bom líder não manda com o coração. Mas serve com o coração e lidera com o espírito ponderado, aquecido no amor e na coragem de fazer e realizar o que é preciso. 

Coragem é a ação do coração que não manda, nem ordena, mas transforma-se em energia, que é recebida e direcionada pelo Espírito. E um Espírito pleno de amor e coragem sabe o que fazer.

Já a palavra "bravura" vem do latim 'barbrus', de bárbaro. Barbárie é algo ocasiado por selvageria, ausência de razão ou direção espiritual, força irracional ou não ponderada pelo Espírito.

Bravura vem do corpo, é força física, que prescinde da direção do Espírito.

Quando você toma coragem é  porque você já se convenceu em espírito e coração, que precisa fazer algo. A coragem, energia do coração, 'ativou' o espírito a raciocinar, ponderar e a direcionar sua vondade. E um espírito elevado em amor e coragem torna-se o Espírito que verdadeiramente conduz e direciona sabiamente a vontade.

 

IRA E ÓDIO

 

A irá é pontual. Ela vem e vai rápido e dura apenas o necessário.

O ódio permanece, ocupa tempo e espaço. É alimentado.

A ira é potência. Ela destrói para transformar, é ativa. O ódio é impotência. Ele se alimenta da impotência diante de algo, que ele julga precisar ser transformado, mas não possui a coragem ou a capacidade para o fazer.

A ira é sempre impetuosa, mas corajosa, requer coragem. O ódio é sempre silencioso e covarde. E sendo covarde, apoia-se no medo.

A imagem de um anjo  empunhando uma lança é um chamado contra a covardia do ódio, da intolerância e do medo que o ódio impõe. 

A ira pode ser dos anjos, daqueles que se elevam para harmonizar ou equacionar as forças, não no grau racional dos homens, mas em potência ou consciência ativa. Porém, não o ódio. 

O ódio é sempre dos anjos caídos, amedrontados, sem consciência e acovardados, que passam anos alimentando sua impotência, envenenando almas através do medo e  atuando na sombra da sua covardia.

Nunca a coragem ou "cor actus", a ação do coração, foi tão necessária como antídoto ao ódio, quanto agora, nesses tempos sombrios que estamos vivendo. 

O mundo sempre nos exigiu coragem e de vez em quando alguma ira. Mas  desconfie de quem só dissemina medo ou o seu ódio e intolerância, amparados na sua eterna impotência cognitiva e espiritual de transformar as coisas.

 

 A ESPADA E A BALANÇA

 

Na Idade Média 90% da população no mundo todo  não sabia ler ou escrever. No início do século XX esse índice ainda era de 70%. Um índice altíssimo, mesmo passados cinco séculos. 

Imaginemos um mundo onde a maioria da população não domina a leitura e a escrita. Como ensinar valores morais ou espirituais? Muitas vezes a palavra oral falhava; as pessoas, sem instrução, não compreendiam muitas palavras, que não eram do seu uso ou domínio no dia a dia.

Por isso a religião recorreu às imagens. Era mais do que uma suposta idolatria ou valorização da Arte como forma de lapidar as almas. Era também um modo de dizer. Daí tanta pintura sacra, representando santos e suas virtudes, especialmente numa igreja, cujas missas eram rezadas em latim, uma língua morta em meio a diferentes línguas, dialetos e idiomas e que só deixaram de ser rezadas em latim em 1960. 

Como representar então a coragem e a justiça, sem o uso das palavras? 

Para a coragem, a imagem da espada. Para a justiça a imagem da balança. Assim que toda uma iconologia ou iconoclastia foi criada pelas religiões mas, na medida em que as pessoas foram se letrando, sofisticando o pensamento por meio da aquisição da leitura e da escrita, essas imagens perderam seu sentido latente.

Hoje nosso grande desafio é transformar essas imagens em consciência ativa, com presença e força de Espirito, aquecidas por um coração amoroso e que disciplinem nossa vontade para um atuar pleno de sentido humano. 

Débora Martins

domingo, 30 de agosto de 2020

Breves reflexões sobre a Liberdade

 


Falar sobre Liberdade, sob a luz da Antroposofia, é uma tarefa exigente e desafiadora, então vou tentar colocar nesse texto algumas reflexões para os amigos leitores e amigas leitoras, com o fim de convidá-los a seguir nessa jornada comigo.

Caros amigos vocês já se fizeram essas perguntas:

Quando sou livre?

O que está por trás dessa liberdade?

Muitas pessoas respondem as perguntas sobre liberdade através de relatos como admirar uma praia bonita com o mar calmo ou na montanha contemplando uma paisagem de árvores e plantas.

Pessoas também respondem através de ações, como por exemplo: sou livre quando faço algo que me agrada e faz sentido, ou então quando faço o que quero.

Mas podemos nos aprofundar um pouco mais sobre essas perguntas sem invalidar as respostas dadas acima.

O que os dois relatos tem em comum?  O pensamento. 

“Observação e pensar são os dois pontos de partida de toda busca cognitiva consciente do ser humano.”  Rudolf Steiner GA 4

Assim, temos que tomar por base o pensamento e a observação para refletirmos sobre a Liberdade.

Em relação à contemplação das paisagens usamos nosso pensamento construindo representações mentais das plantas ou da praia, elas mobilizam um sentimento de prazer em nós, e como Steiner diz: “Também aqui o pensamento é o pai do sentimento.” GA 4.

No momento em que agimos para algo prazeroso, em primeiro lugar surge o pensamento da ação para depois executarmos a ação em si, nesse momento temos que respeitar toda uma convenção social presente na cultura da época, do lugar, não podemos simplesmente agir sem nenhum critério previamente analisado, então se conclui que, nas nossas ações concretas, nós não somos livres.

Mas podemos expandir nossa consciência, e podemos fazer um exercício de colocar o pensar como objeto de observação, isto é, pensar o pensar. Para esclarecer melhor a afirmação acima temos as palavras de Steiner em GA 4.

“Pelo fato de dirigir o seu pensar para a observação, ele tem consciência dos objetos; quando dirige o seu pensar sobre si mesmo, obtém consciência de si próprio, ou seja, autoconsciência....Ora, quando o pensar dirige atenção para sua própria atividade, ele tem em si mesmo, ou seja, seu sujeito, como objeto diante de si.”

Com esse exercício podemos enxergar os porquês dos pensamentos que pensamos, e de onde eles vêm, acessando nossos arquivos da memória que nos motiva pensar desse modo, e vamos observar que ações são praticadas a partir de pensamentos superficiais, levando em conta condicionamentos sociais ou normas, essas ações não são livres, mas as ações praticadas através do pensamento intuitivo, sem esperar nada em troca e em amor, essas sim são totalmente livres.

Do mesmo modo temos a prática de meditação, a busca por um autoconhecimento, nesse momento podemos observar nosso pensar, nossa respiração, cada parte do nosso corpo conscientemente, e essa meditação é feita em total liberdade, pois também não somos coagidos a praticá-la, a ação de meditar é livre.

Mas hoje, em plena Época da Alma da Consciência, Steiner nos convida a desenvolver o pensar intuitivo, para que a nossa ação seja executada em liberdade, pois a partir da observação do pensar podemos agir conforme o mundo das ideias.

“[…] encontra a liberdade como característica das ações que fluem a partir das intuições da consciência. Nessas considerações sobre a vontade humana, foi apresentado o que o ser humano pode vivenciar em suas ações para chegar à consciência, por meio dessa vivência: Minha vontade é livre. É de significado especial, que a justificativa para caracterizar uma vontade como sendo livre é obtida por meio da vivência: na vontade se realiza a intuição de uma ideia. Isso só pode ser o resultado da observação.” Rudolf Steiner GA 4.

Mas como desenvolver o pensar intuitivo?

Queridos amigos e amigas, vamos verificar na nossa vida cotidiana quantas ações são realizadas em “piloto automático”, vamos agindo de acordo com as pressões, convenções até mesmo seguindo uma religião.

Vejamos, peguemos um livro cujo tema central é mais denso, complexo e exigente e quando começamos a lê-lo, acabamos pensando na lista do supermercado, mesmo lendo as palavras e parágrafos. Ora, nem paramos para observar o nosso pensar, ele foi automático, mas vamos à experiência, lemos o mesmo livro analisando cada palavra e cada parágrafo o seu sentido, observando como isto se dá no nosso pensar, eu posso chegar a tirar conclusões sobre o livro por mim mesmo, porque estou consciente na leitura do livro.

Esse exemplo acima mostra como desenvolver o pensar intuitivo, quando  pensamos sobre o pensar  Steiner o chama de estado de exceção, porque  o pensar cotidiano  se dá através de representações mentais passando na nossa mente o tempo todo, é um estado comum, mas o pensar como objeto de observação do pensamento, este sim é um estado de exceção, pois necessita esforço próprio, e a partir desta prática começamos a fortalecer a nossa capacidade de atenção, buscamos sentido para os fatos, temos maior senso crítico e avaliamos se a decisão de agir  que  tomamos  é fruto da influência de algo externo a nós,  de algum  preconceito enraizado ou de “gatilhos” de memória de fatos que  nos influenciaram no passado.

Deste modo, passamos a agir no cotidiano com mais consciência, pois a capacidade de observação do pensar expande a nossa atenção ao todo, e assim, nossa ação poderá ser praticada conscientemente e em amor que nos leva a liberdade.

Portanto, o desenvolvimento do pensar intuitivo nos torna mais autoconsciente.

Podemos visitar a nosso passado e vermos também que, quantas vezes nós também agimos através do pensar intuitivo, tivemos situações onde observamos o nosso pensar, acessamos o mundo das ideias e chegamos a uma conclusão por nós mesmos, sem qualquer influencia de alguém ou pressão exterior que nos obrigasse, sem nenhuma expectativa de ganho, então podemos afirmar que nossa ação foi praticada em Amor que proporcionou a Liberdade.

Como disse Rudolf  Steiner em GA 4:

“Os espíritos livres, porém, não se conformaram com tal escravidão. Eles se levantam a partir do momento em encontram a si mesmos para seguirem os seus caminhos em meio ao caos das convenções, obrigações e exercícios religiosos. Eles são livres quando seguem apenas a si mesmos, não livres quando se submetem. Quem pode dizer que é livre em todas as suas ações? Mas em cada um existe uma essência profunda na qual se expressa um homem livre.

Nossa vida se compõe de ações livres e não livres. Não é possível formar por completo a ideia do homem sem pensar no espírito livre como expressão mais pura do homem. Verdadeiramente homens somos apenas como seres livres.

Muitos dirão que isso é um ideal. Sem dúvida! Mas é um ideal com fundamento em nossa essência e que está vindo à tona. Não é um ideal abstrato ou sonhado, mas um ideal que possui vida própria e se anuncia claramente mesmo em suas manifestações pouco perfeitas.”

O desafio da nossa época é trilhar um caminho de autoconhecimento e autodesenvolvimento, quanto mais nós praticamos o pensar intuitivo, mais encontramos conceitos únicos e claros que nos definem, e com isso conseguimos atuar cada vez mais no mundo com a força do Amor que faculta a liberdade, pois nos conhecendo temos maior clareza para refletir sobre nossas atitudes.

O agir a partir do pensar intuitivo é uma prática diária, não se consegue por passe de mágica, é uma meta a ser conquistada, mas quando agimos, seja em maior ou menor grau a partir desse modo de pensar, temos a nítida sensação de que foi uma ação genuinamente nossa e nos sentimos totalmente livres.

Temos que conviver diariamente com a pergunta: “Se eu soubesse o que realmente eu deveria fazer?” Mas quando encontramos as respostas corretas e agimos a partir do pensar intuitivo iremos também perceber que fomos instrumentos de forças superiores que nos auxiliaram e capacitaram além do que nós nos julgamos capazes, e então podemos dizer que, prestamos um serviço à meta de desenvolvimento da humanidade, se tornar a Décima Hierarquia da Liberdade e do Amor.

Em GA 4 Rudolf Steiner completa:

“A natureza faz do homem um mero ser natural; a sociedade, um ser que age conforme leis; um ser livre somente ele pode fazer de si mesmo. A natureza abandona o homem em determinado estado de sua evolução; a sociedade o conduz  alguns passos adiante; o último aperfeiçoamento somente ele pode dar a si mesmo.”

Caros companheiros de jornada na Ciência Espiritual essa é a minha pequena contribuição a partir do tema Liberdade, que é muito amplo e fascinante.

Agora eu finalizo o tema com um verso de Steiner, os quais podem ser meditados diariamente, a fim de nos fortalecer na prática do pensar como objeto de observação.

“Quando deixa viver

Nos alvos campos do espírito

A pura força do pensar,

A alma apreende a liberdade em seu saber,

Mas quando, com sua vida plenamente assumida,

Cônscio de sua liberdade, o homem

Insere na vida sua força de vontade,

A liberdade celebra sua realidade."

 

Rita Paula Wey Nunes da Costa

 

quarta-feira, 8 de julho de 2020

DURMA COM OS ANJOS


“Ela acreditava em anjo e, porque acreditava, eles existiam.”
Clarice Lispector


 - Boa noite, durma com os anjos!
Uma frase bastante comum na minha infância, quando minha mãe se despedia de mim, na hora de dormir.
E, no resgate dessa lembrança, associada a alguns novos conhecimentos, me disponho a falar sobre algo que envolve nossos hábitos e que podem ser realizados 'no piloto automático' ou com consciência.

Quando minha mãe se despedia de mim, na hora de dormir, ela transmitia que ali se encerrava um ciclo, e que dormir com os anjos me prepararia para o novo ciclo no amanhecer.

Ao dormir, nossa alma se distancia de nosso corpo físico e se envolve com outras questões. Quais questões ? O que determina isso ? Posso dizer que, quanto mais consciência tivermos desse processo, mais claro isso se torna.

Temos o tempo de acordar e o tempo de dormir. Isso implica na necessidade que temos de realizar um descanso, certo? E, talvez a pausa precise ser considerada também num outro sentido, ou seja, o que estamos pausando mesmo ?! E de que modo?
Dado o conhecimento de que somos seres espirituais encarnados, quando estaremos descansando? No tempo acordado ou no tempo dormindo?

'Alguém' por aí já disse: Nem só de pão vive o ser humano. Pois é, esse ser que sabia das coisas, revelou numa simples frase que não é apenas importante alimentar e cuidar do corpo físico, que precisamos de outras coisas para nos sentirmos nutridos.

"A gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte..." é uma resposta que, na atualidade, se aproxima um pouco mais do vislumbre de outras instâncias. 
Em seu livro 'Teosofia', R. Steiner diz:
Assim como não conhecemos inteiramente uma pessoa quando só temos uma ideia de sua aparência física, tampouco podemos conhecer o mundo que nos cerca quando só sabemos dele o que nos revelam nossos sentidos físicos. (...)Nós só podemos compreender totalmente o mundo físico ao discernirmos seu fundamento anímico e espiritual.
Reconhecendo que além de corpo, temos também alma e espírito, vamos voltar a refletir sobre o sono, e o que pode acontecer entre estes três universos que compõe nossa existência terrena, enquanto seres humanos.

O que se passa quando dormimos ?
O sono se revela como portal de acesso ao mundo espiritual. Nossa organização anímica se distancia desta realidade para se deparar com outras vivências, e através delas se abastecer para continuar sua existência com mais orientação, de acordo com seus próprios valores. Nessa esfera, nossa alma pode se desfazer do lixo acumulado, pode se nutrir, pode recolher orientação, pode rever seus passos e redirecionar determinadas escolhas.
No sono, a alma, ao acessar as esferas espirituais, pode se reconectar com seu propósito de vida, na Terra. Para isso, precisamos nos preparar para o sono.
E se, quando criança, absorvi essa orientação, também fiz assim com minha filha, e ao acompanhá-la para o adormecer, contava uma bela história, depois trazia o verso da noite, e assim ela podia embarcar para uma boa noite de sono. Uma amiga, contou, dia desses, que sua mãe antes de dormir, enfatizando a importância de uma conexão com o plano espiritual e a preparação para o sono, lhe dizia: "Não somos bichos, somos seres humanos. Bichos, se deitam e dormem, nós precisamos fazer contato com nosso anjo da guarda através de uma oração, para entrarmos no mundo do sono." É como nosso 'Olá!' para ele, "vim te visitar".

Como podemos dar nosso 'Olá!' para o plano espiritual, quando adultos ? podemos repassar a nossa própria história, a história do dia que acabamos de vivenciar, em retrospectiva, e colher os aprendizados, nos confrontarmos com as vivências inadequadas, enfim, separar o joio do trigo. Isso ativa nossa consciência para atravessar o portal do sono, e praticamente orienta, a partir das nossas reflexões, o encaminhamento das nossas vivências para as esferas mais sutis.
A partir disso, podemos colher, mais direta e ou conscientemente, a orientação que precisamos.

E na manhã seguinte, ao despertar, antes de nos levantarmos, podemos nos deter por uns instantes, para recolher as lembranças, seja por meio de uma imagem que nos salta, ou uma palavra, ou uma sensação. A intuição que surge é um anúncio do plano espiritual, a sensação que desperta pode ser um tema a ser investigado.

A partir dessas práticas diárias, vamos nos conectando com a nossa essência, e a partir dela, nossa consciência se amplia.
Quando entramos mais em nós mesmos? Quando, dentro do sentimento geral da vida, percebemos o que sempre temos como nossa consciência na condição de vigília; quando percebemos quem somos; quando nos experimentamos interiormente; quando sentimos quem somos nós. (GA-199 - R. Steiner) 
Não só durma com os anjos, mantenha-se em conexão com eles durante todo o seu dia. Assim, teremos  o mundo espiritual mais presente.

Olivia Gonzalez
Aconselhadora biográfica, terapeuta corporal e terapeuta floral

terça-feira, 23 de junho de 2020

ÉPOCA DE JOÃO BATISTA


Com a celebração do dia de São João em 24 de Junho vamos entrar na Época de João Batista, assim, quis fazer um texto para homenagear essa individualidade tão grandiosa e importante para o Cristianismo e para a Antroposofia.
Na época da vinda do Cristo há dois mil anos, a humanidade estava cada vez mais enraizada em conceitos pregados por falsos messias, e a religião totalmente adormecida para o espiritual, reduzida a um templo burocrático aliado ao poder dominador da época.
Assim, podemos dizer que a humanidade estava atravessando um deserto anímico.
João, primo de Jesus de Nazareth, que viveu entre os Essênios, educado para ser sacerdote, atingindo alto grau de iniciação passa a exortar: “Preparai o caminho”, “Mudai vosso pensar”, “Arrependei-vos por que é chegado o reino dos céus”, para que a humanidade pudesse perceber a existência do mundo espiritual e os ensinamentos do Cristo, o Messias, que estava para vir, por isso ele também é conhecido como a Voz que clama no Deserto, o deserto anímico da humanidade para que ela o atravesse do antigo para o novo.
A Voz anuncia que a Palavra se fará Carne e habitará entre nós.
Também dizia que ele deveria diminuir para que o verdadeiro Messias crescesse.
Ele realmente clamava uma mudança, em grego uma Metanóia, mas o que significa essa Metanóia: conforme o Pastor João Torunsky da Comunidade de Cristãos disse em sua palestra “A trindade e o impulso do batismo”:

“Metanóia significa a mudança, a transformação interior de uma pessoa, de seu modo de pensar, de seu modo de ver o mundo, do seu caráter. João Batista procurava despertar as pessoas para a necessidade da metanóia, de direcionar a consciência para o divino, para valores de qualidades humanas.” 

Portanto, uma mudança do modo de pensar, para um pensar mais consciente, através do autoconhecimento, que a humanidade deveria saber separar o essencial do supérfluo na vida, e também ter a capacidade de auto julgar seus atos, e eles não serem mais atrelados às leis e mandamentos externos, mas sim, fundamentado no que é ético e moral, sermos verdadeiramente humanos.
João Batista somente batizava pessoas adultas, e os que ele julgava preparados para esse batismo, para essa mudança, por isso pedia que os seres humanos preparassem o caminho para poderem mudar de um pensar antigo morto para um pensar vivo em consonância com as verdades espirituais.
Pois, durante o batismo as pessoas eram mergulhadas nas águas do Rio Jordão, e ficavam submersas por um tempo até experimentarem o desprendimento do corpo etérico, através da experiência de quase morte, e assim podiam reconhecer o mundo espiritual nesta vivência.
Hoje, como estamos em plena era da Alma da Consciência, iniciada em 1413, os seres humanos devem cada vez mais desenvolver o autoconhecimento, por livre vontade, em total liberdade, sem a forma do Batismo no Rio Jordão, o desprendimento do corpo etérico, agora, conscientemente, seguindo os ensinamentos deixados pelo Cristo, a humanidade deve diminuir o seu ego de homem velho, seus limites para dar lugar ao homem novo, com o seu Eu Superior despertado a partir da força sanante do Cristo.
Assim nos ensina Emil Bock:

“João continua sendo aquele que prepara seu caminho. À medida que seres humanos aceitarem Cristo em suas almas, um novo crescimento pode começar. O homem pequeno, encolhido, diminuto, dotado de ego recebe a semente da nova grandeza. A antiga grandeza cósmica de João ressurgirá um dia, quando seres humanos aprenderem a crescer para além de seus limites por causa do Cristo neles.”

Para vivenciarmos a Época de João Batista hoje, nós como humanidade, não podemos deixar de nos relacionar com a tarefa da nossa época, a Alma da Consciência, nos abrir conscientemente para as revelações do Mundo Espiritual, a vivência do Cristo no plano etérico, e desenvolvermos cada vez mais uma clarividência consciente adquirida através dos estudos da Ciência Espiritual.
O Profeta João Batista clamava isso, ele representava ainda a sabedoria antiga, mas se deixou permear pela nova sabedoria e passou a anunciá-la, que a os seres humanos despertem para a consciência de um “Eu” individualizado pleno de sabedoria permeado com a qualidade cristã.
Assim, quando, nós seres humanos, damos um passo para esse autoconhecimento, o Mundo Espiritual pode se revelar e emanar vida e força, então todos poderemos através do físico-sensório reconhecer o mundo suprassensível, em liberdade, e dar um passo na nossa evolução.
Para ilustrar o texto segue um verso, de Ruth Salles, que congrega a nossa tradição de Festa Junina, com os ensinamentos desse Profeta tão importante para a Humanidade.
“Aqui,
Na noite antiga de garoa e frio fino,
Subiam balões de luz em honra do primo de Jesus,
São João menino.
E, em nosso coração cada balão,
Subindo rápido em linha reta,
Era o próprio João Menino se transformando em João Profeta.
Era o Profeta,
Que parecia o clarão da madrugada,
Antecedendo a chegada do Sol Nascente,
Da maior Luz:
O CRISTO JESUS”             

Rita Paula Wey Nunes da Costa

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Acalmando a mente


Agora, mais do que nunca, ouço muitas pessoas perguntando: quais são os sintomas da ansiedade?
É uma boa pergunta e você vai achar uma infinidade de materiais a respeito. Meu convite aqui é que você venha para o presente!
Se está aqui, talvez esteja se sentindo ansioso. Então procure lembrar como estava em seu estado de mais tranquilidade. Como estava seu sono e como está agora? Sua alimentação? Concentração? Humor? Respiração?
Não há sentimento bom ou ruim. Ansiedade, medo e tristeza fazem parte da vida, a questão é quando eles começam ganhar um tamanho maior do que deveriam, impactando negativamente no dia a dia.
A ansiedade em excesso nos tira do aqui e agora, como se a mente fosse levada por um redemoinho de pré-ocupações relacionadas ao futuro. A atenção plena, por sua vez, ajuda a nos trazer para o presente.
Como assim? É mais simples do que você imagina, e talvez, por ser tão simples, tenhamos perdido um pouco essa habilidade. A atenção plena nos convida a focar no que estamos fazendo! “Quando você beber, apenas beba; quando caminhar apenas caminhe”. Ditado zen.
Quando nos concentramos de verdade em uma tarefa simples, como respirar, lavar a louça, fazer exercício, envolvendo-nos com aquela atividade com o corpo e com a mente presentes, temos a chance de experimentar mais calma.
Compartilho um breve exercício. Por exemplo, ao beber um copo d’água, perceba antes a textura, o formato, o tamanho, a cor do copo — atente-se aos detalhes. Quando a água tocar seus lábios, sinta a temperatura, preste atenção a cada gole. E, do início ao fim, coloque sua intenção no que está fazendo.     
Podemos exercitar a atenção plena também com o que acontece em nosso mundo interno, reconhecendo os próprios sentimentos, sem minimizá-los ou aumentá-los criando um enredo acerca deles que vai alimentando mais e mais pensamentos, colocando assim mais peso sobre aquilo que já está difícil. É um exercício de reconhecimento e acolhimento, com a intenção de ver as coisas tais como são, nem mais e nem menos.
Cuidar do que está dentro de si facilita lidar com o que está fora e responder melhor às dificuldades da vida. Manter-se em estado de presença, respirar, observar-se sem julgamento pode trazer mais bem-estar emocional.
“Quando a mente está agitada, o mundo também está.
Quando a mente está em paz, o mundo também está.
Conhecer a nossa mente é tão importante quanto tentar mudar o mundo.”
Haemin Sunim

Andressa Miiashiro. Psicoterapeuta, orientadora de carreira e facilitadora de grupos.
www.lotustalentos.com.br

sábado, 16 de maio de 2020

A MODERNA EXPERIÊNCIA CRÍSTICA


Como estamos na época compreendida entre a Páscoa e a Ascensão de Cristo, vou escrever sobre a moderna experiência Crística.
Meu texto está fundamentado nas observações da Dra. Ana Paula Cury em “Condições da moderna experiência Crística – Evolução da Liberdade”.
No Batismo do Jordão, o homem Jesus de Nazareth empresta seus invólucros corporais para que o Ser Solar Maior, o Cristo, possa se manifestar e atuar na condição humana.
 A humanidade estava correndo o risco de perder sua evolução, de não mais cumprir sua meta de desenvolvimento, porque não mais se lembravam da sua origem, e nem do seu destino, que é se tornar a décima hierarquia, Seres da Liberdade e do Amor.
Assim, veio o Cristo para a Terra, e deixou com exemplos os ensinamentos do Amor altruísta, a fim de que os homens  possam novamente se reconectar com sua verdadeira natureza espiritual. Desse modo, este Ser Solar Maior se instalou nas profundezas das almas humanas de maneira inconsciente esperando o momento certo para que compreendam a lição do Amor, a exemplo de uma semente que fica na terra aguardando o momento certo para germinar.
Podemos fazer uma relação com o Prólogo de João:
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus”. Ele estava no princípio junto de Deus,
Tudo foi feito por ele, sem ele nada foi feito. Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.”  João, 1, 1-5.
Para poder cumprir a sua meta de desenvolvimento, a humanidade, através das épocas culturais, teve que, cada vez mais, se individualizar adquirindo autoconsciência, se apartando dos seres espirituais e desenvolvendo o pensar autoconsciente, o que levava também a um pensar materialista e fundamentado nas ciências naturais, assim tomando posse gradativamente de uma liberdade, que hoje chega ao ponto de até poder negar a existência de um ser Divino Solar que esteve presente na Terra, através de um pensamento livre.
Esta capacidade de se apartar da convivência com Seres Divinos Espirituais no Mundo Espiritual está em consonância com os desígnios da Trindade Santa, pois a humanidade agora tem a liberdade para escolher o caminho que quer traçar, ou recordar a sua origem divina espiritual através de um moderno caminho iniciático crístico, por livre e espontânea vontade, sem nenhuma influência externa de gurus ou autoridades religiosas, como era praticado nas Antigas Escolas de Mistérios, ou continuar com um pensamento materialista e egoísta influenciado pelas potências adversárias.
Cristo, Ser Solar, veio a Terra, por três anos, morreu na Cruz e em três dias ressuscitou e ficou por quarenta dias junto aos discípulos, ainda ensinando sobre o Amor, até sua Ascensão aos Céus. Mas ele não voltou para o Sol, ficou na Aura Terrestre como um ser Angélico e se manifesta em forma etérica.
E assim está escrito no Evangelho de Mateus cap.28 v.20:
“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos.”
E cada ser humano que se propuser em total liberdade a ter atitudes altruístas, amorosas levando em conta princípios morais e éticos, e em comunhão com o Cristo despertará em sua alma a consciência que foi depositada por ele quando da sua passagem pela forma humana, e assim começará a desenvolver a  experiência moderna da sua manifestação.
Ou então, qualquer indivíduo que se proponha também, em liberdade, a estudar e praticar atos a partir dos ensinamentos da Ciência Espiritual deixados por Rudolf Steiner junto com o Ser Antroposofia, transformando egoísmo em altruísmo, levando em conta princípios morais e éticos, também poderá despertar a consciência para seu autoconhecimento e seu desenvolvimento e assim experimentar a mesma vivência do Cristo no Etérico.
Nas sábias palavras de Jesaiah Bem - Aaron
“Qualquer experiência moderna do Cristo, seja ela tão poderosa e transformadora  quanto possa ser, deve ser vista como uma aproximação amistosa, respeitando inteiramente a liberdade humana e responsabilidade consciente pela totalidade da vida, oferecendo ao homem uma experiência de si mesmo que possa servir como exemplo e protótipo, modelo de uma possível evolução futura. O Cristo planta uma potente semente na alma humana, mas Ele o faz de tal modo que esta semente só venha a se tornar frutífera na vida futura da humanidade, quando o próprio homem, a partir de sua livre iniciativa, moral e cognitiva, dela se aproprie (individualize) e a leve adiante em seu desenvolvimento."
Cristo deixou forças para despertar no ser humano a consciência de que somos seres espirituais vivendo experiências humanas. Mas essa afirmação só fará sentido no ser humano que, em total liberdade a reconheça no seu coração como verdadeira.
Com esse reconhecimento o ser humano então saberá que sua origem é espiritual, e que através de experiências humanas, como no caso um caminho iniciático cristíco cognitivo livre e consciente, ele saberá também que o seu destino, ao exemplo do Cristo o Logos, é a doação de Amor para a Terra.
Como bem colocado por Rudolf Steiner em O Evangelho segundo João – Ciclo de Conferências  de Hamburgo.
“A missão da nossa Terra consiste em que seres a se desenvolverem nela levem o elemento do amor a desabrochar até o máximo possível....Porém o que o ser humano realmente doará à Terra é o amor, que se desenvolverá de sua forma mais sensual à forma mais espiritual.”
O Cristo é hoje o Mestre Iniciador, o Guia Espiritual, mas, ele só se aproxima  do ser humano, nesta época moderna, quando nele houve um despertamento consciente para os seus ensinamentos.
Em momentos de solidão, dor, desespero, ansiedade e depressão, os seres humanos sentem-se separados da fonte de vida que emana do mundo espiritual, e é nesse momento que Cristo pode se aproximar para que aconteça o despertar espiritual consciente, veja se não é esse o momento que a humanidade está vivenciando com a pandemia.
Se alguma das dores acima for enfrentada conscientemente todos nós poderemos experimentar a aproximação do Cristo revelado no plano etérico, nos agraciando com forças para enfrenta-las, e com isso todos nós podemos  avançar conscientemente no autoconhecimento e assim dar um passo evolutivo em direção ao amor espiritual.
Assim diz sabiamente Dra. Ana Paula Cury:
“Cristo mostra as alturas e as profundezas do ser a fim de ajudar-nos a encontrar o equilíbrio e seguir de forma consistente na busca de nosso Verdadeiro Eu. Ele nos exorta ao autoconhecimento e nos acompanha como uma presença amiga, consoladora, que orienta e guia sempre que o necessitamos.”
Acredito que nós, habitantes do Planeta Terra, diante da pandemia que nos assola, estamos diante de um momento para experimentarmos esta moderna iniciação crística, pois diante do isolamento social, do medo do vírus invisível, estamos vivenciando as dores de um abismo, mas se levarmos essa situação conscientemente, fazendo reflexões que levam ao autoconhecimento, a busca pelo Eu Superior, sendo mais altruísta e amoroso não só conosco, mas principalmente com os outros, aí vamos ver a Cruz que se levanta sobre o Mal, e de novo acontecendo o Mistério do Golgotha derramando as forças para que nós avancemos cada vez mais para a meta evolutiva.
Citando novamente Jesaiah Bem – Aaron:
“Somente por meio deste íntimo autoconhecimento pode o homem corretamente entender e dispor da benção que o Cristo confere a seu ser. Ele compreende que o Cristo lhe mostra em imagens, palavras e atos aquilo em que ele pode se tornar se trabalhar em si a partir de sua livre decisão e contínuo esforço.”
E assim, se continuarmos nos esforçando para trilhar a Moderna Iniciação Crística em liberdade e principalmente em amor desinteressado pela humanidade, então no futuro poderemos falar verdadeiramente as mesmas palavras de Paulo de Tarso na Bíblia em Gálatas cap.20 v.20-21.
“Não mais Eu, mas Cristo em mim”
Por fim, para este momento peculiar que a humanidade está vivenciando nestes dias, vou colocar um poema do saudoso compositor brasileiro Gonzaguinha, para que nós não percamos a fé e tenhamos nas nossas mentes e corações a certeza da ajuda sempre presente do Mundo Espiritual.

 Semente do Amanhã


Ontem um menino que brincava me falou
Que hoje é semente do amanhã

Para não ter medo que este tempo vai passar
Não se desespere não, nem pare de sonhar

Nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!

Fé na vida Fé no homem, fé no que virá!
Nós podemos tudo
Nós podemos mais
Vamos lá fazer o que será

RITA PAULA WEY NUNES DA COSTA

terça-feira, 14 de abril de 2020

O ATUAR E A ÉTICA


Esta semana vi um filme na plataforma de streaming Netflix um filme que ficou em cartaz nos cinemas no final do ano passado chamado “Luta por Justiça”, e me chamou muito a atenção a história do personagem principal, um jovem advogado que trabalha defendendo presos no “corredor da morte”, no Estado do Alabama, nos Estados Unidos, e outro filme chamado “Uma prova de Fé”,  este na plataforma de streaming Prime Vídeo, no qual os pais tem que dar uma lição aos filhos adolescentes  sobre ética.
E como eu tinha que falar sobre ética neste texto, esse dois filmes vieram como uma inspiração para eu falar sobre esse tema.
À Luz da Ciência Espiritual, a humanidade está desenvolvendo, nesta época, a alma da consciência, isto é, o exercício da liberdade autoconsciente, tanto interior como exterior.
Todas as pessoas, hoje, tem acesso à Antroposofia, ou a matérias edificantes que desenvolvem um senso de comportamento moral e ético, como também a outros conteúdos sem nenhum critério oferecidos pelos meios de comunicação, podem escolher qual o melhor para si, com qual conteúdo  irão se relacionar, podem usar a sua liberdade exterior e tomarem as  próprias decisões, a partir da sua consciência.
Quanto à liberdade interior, esta é mais complexa  e exigente, a humanidade tem que lidar com seu Ego, onde estão os impulsos e cobiças, onde a vontade está totalmente indisciplinada portanto, ainda não está conquistada essa liberdade por inteiro.
Também todos estão sujeitos a suportar as consequências dessas vontades, escolhas e ações.
Como bem coloca Daniel Burkhard, em seu livro Nova Consciência- Altruísmo e Liberdade: “Porém a liberdade tem dois lados: liberdade exterior e a liberdade interior.
A liberdade exterior pressupõe a ausência do exercício de poder de uns sobre os outros. É a liberdade para mim e para os outros, mediante valores e limites estabelecidos em conjunto. Viver e deixar viver. A liberdade exterior, nos torna independente dos deuses antigos, das crenças, das normas e dos mandamentos da religião, dos discursos tediosos dos falsos moralistas etc. ...
Por sua vez, a liberdade interior será conquistada quando conseguirmos controlar os impulsos e cobiças e decidir livremente a partir do nosso Eu, e não mais do nosso Ego.”
Assim, quanto mais a humanidade desenvolve a Alma da Consciência mais o Ego vai desaparecendo e dando lugar para o  Eu Superior nas hora de se fazer escolhas,  e atuar perante  a vida.
Neste momento em que, um ato é dirigido pelo Eu Superior que age no pensar, sentir e querer, e esses três âmbitos da corporalidade são coerentes entre si, aí encontro o ato ético aplicado.
O Ego ainda pensa em que um ato praticado pode ser certo ou errado, mas isso é a partir do conceito que uma pessoa tem do certo e errado, dando como exemplo: No Brasil Colônia a escravidão de pessoas era legal, os Senhores de escravos cumpriam a lei, portanto certo, mas esta forma de trabalho era ética?
Quanto mais o Eu Superior está presente na atuação do indivíduo no mundo, ele ainda na ideia pensada se perguntará: Se eu colocar em prática a ideia que eu pensei, este ato será benéfico ou maléfico, meu ato trará saúde ou doença, ou melhor, meu ato será destrutivo ou construtivo, para todos os envolvidos? Ou pensando de um modo macro, o ato praticado por um ser humano trará como consequências, benefícios ou malefícios para toda a humanidade.
Quando o indivíduo aplica a ética em seus atos, podemos também dizer que esse indivíduo tem uma virtude.
Nos tempos atuais é de suma importância a discussão cada vez mais sobre ética, pois como as pessoas ainda oscilam entre o Ego e o Eu Superior, os atos ficam, às vezes, egoísta, outras altruístas.
Mas temos como tarefa, neste momento da humanidade, atuar cada vez mais com altruísmo, a fim de cumprir a meta de nos tornarmos a Décima Hierarquia, seres da Liberdade e do Amor.
Com a pandemia no mundo abre-se uma grande oportunidade para essa discussão sobre esse tema, agora está cada vez mais escancarada esta  atuação ética, porque quando os indivíduos estocam alimentos, cobram mais por itens de higiene que são essenciais para proteção das pessoas, estão em seus conceitos fazendo o que é certo, mas a partir do malefício causado a todos que, não puderam ter acesso ao alimento ou ao item de higiene o ato é visivelmente antiético.
A partir do fato acima descrito fica clara a importância do desenvolvimento correto da Alma da Consciência, a fim de que cada vez mais o Eu Superior dos indivíduos possam atuar e assim realmente haverá uma humanização dos atos praticados, uma maior coerência entre o pensar, sentir e agir.
Voltando ao início do texto, o primeiro filme mostra a coerência do advogado no seu pensar, sentir e agir, em nenhum momento ele se desviou desse caminho, para cada caso que se propunha a defender ele buscava a justiça eticamente, atuava sem se corromper ou violentar seus valores morais. Vale a pena assistir.
No segundo filme, como os pais ensinam os filhos a terem uma atuação ética, o filho do casal assina um compromisso com seu treinador de futebol que não irá ingerir bebida alcoólica, senão será penalizado com a pena de não poder participar dos jogos em campo, assim em uma noite os pais vão busca-lo depois de uma festa e veem que seu filho está alcoolizado, contar ou não para o treinador?  Se o filho assumiu o compromisso de ter certo comportamento antialcoólico, e esconde do seu treinador a quebra dele, vamos ver que a atuação ética começa em casa, na família e quando ninguém está olhando. Também recomendo.
Para finalizar o texto gostaria de compartilhar com os meus leitores e leitoras um trecho do discurso proferido por nosso Ministro do Supremo Tribunal Federal, Doutor Luís Roberto Barroso intitulado “O mundo, o país e o papel de cada um.” Para uma turma de formandos em Direito em que é Paraninfo, no qual ele fala com maestria o que é pensar, sentir, querer e ser Ético.

“IV. Três compromissos consigo próprio
1. Levar uma vida ética
Viver uma vida ética significa viver uma vida boa, ser bom, evitar fazer o mal, tratar a todos com respeito e consideração. A vida boa, tomando emprestadas algumas categorias de Aristóteles, inclui virtude, razão prática e coragem moral. A virtude consiste em cumprir bem o próprio papel, fazer a coisa certa, não desviar do reto caminho. Quem se move por valores e consegue ser fiel a si mesmo, não perde nunca. A virtude é a sua própria recompensa. Virtude não significa moralismo, superioridade ou arrogância. Não é critério para julgar os outros, mas para traçar os próprios caminhos. É a simplicidade da correção pessoal, dos bons propósitos e dos bons sentimentos.
Razão prática ou prudência é a capacidade de fazer juízos adequados, conjugando a realidade e os fatos da vida com os valores a serem preservados e os fins a serem alcançados. A razão prática visa à melhor decisão possível, com a motivação correta e a busca dos melhores resultados. E, por fim, a coragem moral, que é a determinação interior de fazer o que deve ser feito, como deve ser feito, quando deve ser feito. Sem bravatas, com discrição, serenidade e firmeza.
O universo protege as pessoas que vivem assim. Creiam em mim.”

Rita Paula Wey Nunes da Costa

Tema de Reflexão do Mês

Escolhemos um tema como base de reflexão que será iluminado por profissionais de diversas áreas segundo seu olhar e suas vivências. Colaborações e comentários são bem vindos!

Iniciativas Antroposóficas na ZN

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