quarta-feira, 24 de outubro de 2018

A celebração de uma etapa de vida


Terceiro setênio – celebremos essa linda fase! 

Como não celebrar quando falamos de uma fase tão importante da biografia humana?
Dar as boas vindas ao terceiro setênio é possibilitar ao jovem abrir as portas para um novo mundo, despedindo-se do universo cósmico chamado infância, para conquistar o seu lugar na sociedade e no mundo.
Essa transição vai exigir coragem, ousadia e determinação para lidar com uma série de crises, conflitos e turbulências. Nessa época, mudanças hormonais e corporais ocorrem; os membros se alongam e, de forma desajustada, se fortificam e se preparam para transformar a terra e o mundo; órgãos digestivos (metabólicos) atuam mais para a elaboração dos alimentos; alteração na voz, nascimento de pelos, espinhas e uma série de outras metamorfoses acompanham o adolescente, que trilha a incansável busca de si.
É tudo muito novo e idealizado. Nessa fase, ele projeta a imagem de quem se transformará. Muitas dúvidas permeiam seu universo e perguntas como “o que eu quero para a minha vida?”, “quem sou eu?”, “o que faço do meu mundo?” são comuns e, uma das dificuldades é discernir o que é dele e o que é herança de pai e mãe. Eis aqui uma importante questão. Nesse contexto, a grande briga interna é deixar para trás aquilo que o ajudou chegar até ali e, à partir disso, caminhar na conquista do seu Eu.
Essa equação é desafiadora para ele que, muitas vezes, tem a sensação de estar caminhando “na contramão”. Mergulhado em sentimentos conflitantes, relaciona-se ora lançando críticas contra tudo e contra todos, ora ensimesmado em profunda solidão, fechando-se em seu mundo. Para a família, também, nem sempre é uma tarefa simples. Na tentativa de ajudar, muitas vezes, é pouco compreendida e, nessas horas, o risco é o distanciamento, as discussões e os desentendimentos. O mais importante nesses momentos é que esse jovem seja acolhido com carinho, respeito e presença afetiva, envolvido por diálogos construtivos, sem cobranças ou julgamento. Esses nutrientes alimentarão a alma do “entusiasmado buscador”.
É experimentando que esse jovem desabrocha e, qualquer sentimento de solidão, dura pouco. Ele precisa interagir para ter referência do mundo, ajudando-o a imprimir sua marca e seu jeito de ser. Com frequência, buscará nos grupos em que é aceito, o reforço e o apoio para suas ideias e convicções que ainda não sente coragem e fortalecido para enfrentar sozinho. Desta forma, vai conquistando sua independência.
A educação para esse peregrino, diferentemente do primeiro setênio que acontece pela imitação e, do segundo setênio, pela autoridade amada, nessa fase é pela “liberdade” interna e externa. Ele necessita experimentar, expor suas opiniões, conquistar autonomia, até encontrar o fio da meada vinculado ao seu destino. É por volta dos dezoito anos e meio, aproximadamente, com o fenômeno chamado “nó lunar”, quando sol e lua se encontram na mesma posição em que estavam no momento do nascimento, permitindo maior abertura para recordar a sua “missão de vida”, que o trouxe para a terra. Nessa fase, muitas vezes, decide-se o vestibular para determinada área e começa a sonhar com a atuação profissional.
Vale destacar que ele busca o que é verdadeiro e autêntico nos adultos e nas relações à sua volta. Essa verdade servirá de alicerce para a nova fase que adentrará mais tarde, além de contribuir para que se transforme em um adulto íntegro e fiel aos valores aprendidos e conquistados. Aos poucos, vai amadurecendo internamente para despedir-se do passado da adolescência e ingressar na vida adulta com maestria.
Como não se encantar com esse momento tão importante na vida dos jovens? É fundamental compreendermos a tônica dessa fase para que possamos como pais, educadores e influenciadores dessa juventude, fomentar o lado saudável na jornada desse adolescente, almejando por encontrar a sua verdadeira essência.

Daniela Curioni
Psicóloga Clínica




quarta-feira, 17 de outubro de 2018

TERCEIRO SETÊNIO E AS BASES PARA O FUTURO


Em uma aula de 10º ano, uma aluna, após uma exposição e debate sobre a epopeia Gilgamesh, pergunta se era verdadeiro o que a obra dizia. Os versos falavam sobre um dilúvio. Sobre um homem escolhido pelos deuses para construir um imenso barco e colocar em seu interior um casal de cada espécie animal da terra. Sobre o tempo que o barco ficou boiando sobre as águas. Sobre a salvação da espécie humana após aportar novamente em terra firme. A pergunta da aluna possuía também um segundo propósito: ela conhecia bem a história bíblica de Noé, e por isso, ao receber a informação de que a epopeia suméria fora escrita antes do relato bíblico, algo dentro de si se moveu e seu pensamento passou a elaborar a dúvida que ela então verbalizou na aula. Esse pequeno relato talvez nos mostre de uma maneira mais límpida o que vem a ser um jovem em seu terceiro setênio.

O que há nisso de tão sintomático? O que nos é revelado aqui? Pensemos que a exposição do professor estabeleceu como foco a grande aventura do herói Gilgamesh em busca da imortalidade. Ele perdera seu grande amigo Enkidu e tomado de tristeza e angústia pelo sentimento de morte, descobre que apenas um homem na Terra conquistara o dom de ser imortal. Parte em busca dele. É o que o professor narra aos alunos, que o acompanham nessa jornada. E ele encontra este homem, que se chama Utnapishitin. E esse homem conta sua história, de como recebera a imortalidade. E aí sabemos da história do dilúvio. O professor faz uma pausa. Todos olham e pensam. Talvez já tenham ouvido essa história. Então questionam o professor: mas não é a história de...? Elas se parecem, não há dúvida. E qual é a mais antiga? A revelação causa outro silêncio. O professor nada diz. Espera. E aí vem outra pergunta. Há outros relatos semelhantes? Sim, há. Em diversas culturas. Inclusive a ciência fala de uma grande inundação em tempos bastante remotos. Outro silêncio. E aí vem a pergunta: mas qual desses relatos é o verdadeiro?

Entremos nesse jovem e vejamos o que possa estar acontecendo. Ele acompanhava a narrativa que tratava de uma literatura de um povo arcaico, os sumérios. Ao mesmo tempo que recebia informações sobre essa cultura, seu modo de existir e de pensar, seus rituais e costumes, também acompanhava a vida do herói Gilgamesh, um rei severo e arrogante, injusto com seu povo, que tem o seu poder colocado à prova pelos deuses. O rei que se achava poderoso é derrotado em uma luta por uma criatura enviada pelos deuses, Enkidu, que havia sido criado na floresta, entre os animais selvagens. Diante da derrota, Gilgamesh conhece o que antes jamais praticara, a misericórdia e a compaixão. Essas virtudes, praticadas por Enkidu, libertam o rei do que o aprisionava: seus próprios sentimentos. Tornam-se amigos e irmãos. Essas imagens atravessam o sentir do jovem que as ouve e são redimensionadas em seu pensamento. Lá se juntam com as informações que tem sobre os sumérios, sobre a literatura arcaica, sobre as religiões antigas. O que move o herói?

Um dos principais aspectos que se relacionam ao conhecimento do terceiro setênio é quando abordamos a questão do nascimento do corpo astral e da formação do juízo. O que, em termos mais claros, eles podem significar? Temos aqui uma espécie de equação que não pode ser perdida de vista. O pensar do jovem se desenvolve de forma extraordinária nessa fase da vida. A capacidade de abstração se intensifica e ele pode agora transformar fatos em conceitos, relacionar diferentes âmbitos da realidade em uma síntese conclusiva. Essa capacidade, dentro de um desenvolvimento normal, permite que a aprendizagem possa seguir caminhos cada vez mais complexos. No entanto, ao mesmo tempo que ela é maravilhosa, possui também sérios riscos. Entusiasmado com sua habilidade de pensamento, o jovem pode se tornar soberbo, arrogante. Ele agora sabe tudo. Principalmente mais que os adultos. Sua habilidade dialética se torna nociva, porque não consegue abarcar a empatia, que é a capacidade de compreender o pensamento do outro. Por outro lado, o pensar pode se tornar frio, excessivamente racional, por uma ausência de reflexão permeada de sentimentos. Os dois aspectos percebemos fortemente nos tempos atuais.

Ao retomarmos a aula do primeiro parágrafo podemos observar que o pensamento da aluna se manifestou em virtude de alguns aspectos importantes: informação dada dentro de uma sequência em que os elementos façam sentido; possibilidade de exercer empatia ao perceber o espaço proporcionado para as reflexões sobre a personagem e suas ações; prática da pergunta que advém de um real desejo de compreender a oferta do mundo. A esses três aspectos, um quarto deve ser acrescentado, talvez o mais importante: o pensamento elaborado é construção do próprio aluno. O professor pavimenta o caminho da reflexão, mas não dá o destino. Esse destino quem estabelece é o aluno, porque é nesse plano que seu corpo astral tem a oportunidade de encontro com seu eu futuro. Aqui forma-se o caráter num sentido muito mais amplo que o de comportar-se socialmente. Pelo pensar livre, porém permeado de empatia, o aluno permite-se criar para si as questões que fundarão seu caminho de vida. O terceiro setênio é a construção do porto que leva ao futuro.

Sidnei Xavier dos Santos

Professor de Literatura da Escola Waldorf Francisco de Assis

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Criatura criada criando: fenômeno do terceiro setênio




Alguém já disse: Ah... essa idade é fogo!  E isso, pode ser aplicado à varias idades, não é mesmo?! O fato é que todas as idades tem suas dificuldades e suas recompensas. Em cada fase encontramos material para criar 'a dor e a delícia de ser' quem somos, como diria Caetano.

Nossa vida é um ato criativo constante. Somos criados, nos criamos. E para isso, é possível encontrar em cada fase, presentes que nos são conferidos, seja pela hereditariedade, seja pelo plano celestial.
Cada uma dessas recompensas  podem ser reconhecidas como as ferramentas necessárias que recebemos para criarmos a nossa obra na Terra.
Lá no primeiro setênio de vida, podemos encontrá-las  nas características dos tipos constitucionais, assim como no segundo setênio nos temperamentos, e no terceiro setênio, através das qualidades planetárias.
Todos esses presentes, que trazemos da nossa biografia noturna, vão moldando a maneira como captamos o mundo e como atuamos sobre ele, nos  orientando para a missão a ser realizada. 
Tomando a linha de desenvolvimento como ponto de partida, ao final do terceiro setenio concluímos uma etapa que servirá de apoio para as vivências futuras, e a partir desta fase, ganhamos a autonomia para realizar nosso propósito. Até este momento, estamos receptivamente recolhendo material a ser lapidado e, também, resignificado, ao longo dos outros anos.
Até o final do terceiro setenio, os pais, e outros adultos, são os responsáveis pela orientação do desenvolvimento, mesmo que neste setenio a vida se torne assunto próprio, e tudo o que existe seja questionado formando uma grande interrogação sobre 'o que farei' e 'quem sou'. Esses são os passos  para a experimentação da autonomia responsável.  Ainda assim, embora cada vez mais distantes, aos pais cabe apoiar esse desenvolvimento através de orientações, diálogos, muitos diálogos até o final desse terceiro setênio.
Nem sempre dialogar é tarefa fácil e raramente é simples entre os 14 e 21 anos. Este é o período em que o pensar é ativado como nunca, e o jovem está em busca da verdade. Da sua própria verdade e da verdade de todos ao seu redor. E isso o torna muito crítico e exige muita coerência. Porém, como além do sentido do pensamento e da linguagem, nesta época, a audição ganha especial atenção no desenvolvimento, e convém, como responsáveis pela orientação do desenvolvimento de seres nessa etapa, levá-los a compreender a importância do ouvir e considerar a verdade do outro com respeito e tolerância.
Esses fundamentos são de grande importância para as etapas futuras, e primorosas nos tempos atuais, mas sempre relevantes também porque o impulso para a transformação é própria dessa fase. Há energia, idealismo, interesse por um mundo melhor, mesmo que muitas vezes isso não venha acompanhado de valores que garantam sua integridade. Os valores que foram encontrados no segundo setenio e a noção de integridade no primeiro setenio, para ressaltar como uma coisa está atrelada a outra.
Se o conhecimento pode nos apoiar para conduzir o desenvolvimento de jovens isso também está disponível para eles conduzirem uma nova etapa de suas próprias vidas, e um dos grandes desafios que se apresentam é adentrar nos conhecimentos pelos quais eles se interessam sem que o nosso saber sufoque seus interesses ou, no oposto, os despreze como indíviduos.
E  em paralelo com toda ânsia de obter a verdade sobre as coisas, há o amor. Um impulso extraordinário que os leva a buscar o sentido das coisas e se aproximar de pessoas, principalmente em grupos de convivência. Mas o amor extrapola essa vivência e clama por uma experiência divina, idealizada, que invariavelmente se confronta com seus instintos. E se por um lado seus encontros afetivos possam leva-los a experiências tão divinas quanto infernais, por outro, a mística pode se converter em propósito.
Mesmo numa era digital, onde os encontros reais são escassos, ainda assim, surge uma personalidade inspiradora nesta fase da vida que leva, consciente ou inconscientemente, para futuras escolhas.
Saibamos dialogar e explorar o universo desses jovens, sem no entanto querer estreitá-lo. Já que à eles cabe o impulso para a transformação de um novo mundo. Mesmo que seja apenas o de tornar vazio o ninho em que viviam.

Olivia Gonzalez
Mãe waldorf do maternal ao 12º ano

Terapeuta corporal, floral e aconselhadora biográfica

sábado, 6 de outubro de 2018

O que a boca revela sobre nós

    A boca é a porta de entrada do nosso organismo, além de ter várias funções, por ela levamos o mundo exterior para o interior e podemos saber o que acontece neste mundo.
    Por muito tempo a boca foi simplesmente tratada como um triturador de alimentos, sem grandes preocupações com seus elementos, porém hoje em dia, sabemos que todo o sistema estomatognático tem grande importância para o ser integral.
    A boca é capaz de passar informações que nem imaginávamos!
     Existe uma íntima relação entre a posição das arcadas e a postura do indivíduos, a boca é quem sustenta todo processo postural. Arcadas muito para frente ou para trás relata muito da personalidade do mesmo.
      Já nas gengivas podemos observar alterações hormonais e algumas inflamações do organismo.
    Os dentes então são de extrema importância nessa codificação, além de traduzirem a saúde física e emocional, cada um está intimamente ligado a um órgão ou sistema. O adoecimento de um dente é um pedido de socorro da vida interior.
    É possível mudar aspectos psicológicos e sistêmicos mudando o posicionamento dos dentes com a Ortodontia, assim como a posição dos ossos com a Ortopedia funcional dos maxilares. Corrigindo essas alterações é possível libertar e proporcionar condições de cura para a pessoa.
    O trabalho de conhecer o ser humano através da boca tem como objetivo resgatar a saúde integral, trazendo cura e bem estar. 


Adriana Dell'Aquila Defendi

domingo, 30 de setembro de 2018

O despertar da alma infantil para o mundo



No 1º setênio, de 0 a 7 anos, a criança ainda é puro produto da sua hereditariedade.
Ao dar entrada no 2º setênio a partir dos 7 anos, com a troca dos dentes de leite, corta-se o cordão umbilical com a mãe, iniciando de forma mais profunda a encarnação e a individuação do corpo vital.
Se antes o nascer era do corpo físico, nessa fase o que nasce é o corpo emotivo.
É a fase do desenvolvimento do sentir. O foco está no amadurecimento do sistema rítmico, pulmão e coração.
Inicia-se o despertar para o mundo.
A criança não é mais só esponja que absorve e inspira o mundo. Agora ela também expira no mundo a partir do seu mundo interno.
A característica desse setênio é a troca.
Há forças entrando e saindo há todo momento. Inicia-se uma troca entre mundo interno e mundo externo.
A relação eu e você, você e eu, começa a se formar.
A criança passa do lugar mais quentinho e protegido que é a sua casa e a relação com os pais, para experimentar novos espaços e relações na escola com o professor e com os amigos.
Ao ir mais para fora, a criança também passa a enxergar as incoerências e contradições da sua família e do mundo, se deparando com confrontações e desafios.
No seu processo de individuação e formação do seu mundo interior, começa a formar o seu temperamento e incorporar condicionamentos.
É nessa fase que cristalizamos nossas crenças, as verdades nas quais passamos a acreditar que vão formar a lente pela qual enxergamos o mundo.
A partir das nossas trocas, do que passamos a escutar e experienciar, vamos formando verdades como o que é ser homem e mulher e como cada um deve se comportar, por exemplo, “meninos não choram” e “meninas devem saber cuidar”.
Essas crenças e os condicionamentos passam a ficar incorporados no nosso corpo vital, que é o corpo da nossa memória, tornando-se difícil posteriormente a transformação dos mesmos.
Quando a criança é criada de forma mais rígida nesse período ela pode passar a só inspirar e ter mais dificuldade para expirar, tornando-se uma criança mais introspectiva.
E no lado oposto, quando não há limites, só expira e não inspira, a criança poderá se tornar um adulto muito extrovertido, para fora, e com dificuldades para estar mais para dentro, se perceber e perceber o outro.
Este setênio é fundamental para o desenvolvimento psíquico posterior dos 21 a 42 anos, para a formação da nossa saúde emocional.
É importante estimular a criança a viver a beleza do mundo, acordar o seu pensar de forma imaginativa e a desenvolver sua apreciação.
É importante que também haja ritmo e momento para interioridade e exterioridade.
É importante que haja espaço para uma troca saudável entre o mundo interno e externo.
Que os pais e as outras autoridades amadas, como os professores, possam criar um campo cuidadoso para experimentação, sendo facilitadores desse processo de troca.
Que a criança possa ser respeitada em sua individualidade, como no seu temperamento, e que crenças mais expansivas possam ser desenvolvidas, permitindo diversas formas de ser e estar.

Marcela Lempé Madruga

Psicóloga, Coach e Facilitadora de Processos de Desenvolvimento Humano Apaixonada por autoconhecimento e experiências que ampliem a consciência

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Fora do dentro e dentro do fora


"Quem olha pra fora sonha, quem olha pra dentro acorda"
Jung

"Se quiser entender o mundo,
 olhe para si mesmo, 
 se quiser entender a si mesmo,
 olhe para o mundo,
 o Eu é a ponte para o significado da existência."

Rudolf Steiner

Todos nós temos a tendência a nos vermos como que separados do nosso entorno, dos outros, dos eventos, enfim do que nos é exterior. Não nos entendemos como seres interligados e conectados, fazendo parte de um mesmo grande organismo, onde cada um de nós é uma pequenina célula do que chamamos de humanidade. Além disso não reconhecemos que o que acontece fora de nós tem alguma correspondência com o que acontece dentro de nós, são eventos pra nós estranhos, não nos dizem respeito. 
Conhecendo a Antroposofia tomamos consciência de que estamos todos entrelaçados num grande tecido e a separatividade é uma ilusão que para que possamos nos diferenciar e nos individualizar foi de certa forma necessária no processo de evolução da consciência humana. Afinal quando não consigo me diferenciar do todo não é possível o desenvolvimento da auto consciência. Porém chegou a hora de resgatarmos essa sabedoria e percebermos a conexão que existe entre o mundo exterior e o mundo interior. Se pertencem, estão em correspondência, sabendo ler o externo à nós saberemos o está dentro e muitas vezes de forma inconsciente. Um é reflexo do outro, e olhar o mundo exterior como o espelho de nossas almas às vezes é bem desafiante. O caminho do auto conhecimento tem suas curvas perigosas, neblina, cavernas e precipícios, mas também tem suas montanhas com vistas incríveis, seus lagos com águas cristalinas e momentos de curtir o vento nos cabelos... portanto olhemos pra dentro quando nosso entorno nos apresenta pessoas corruptas, egoístas, mentirosas. Olhemos pra dentro e com toda a sinceridade procuremos em que recôndito da nossas almas temos essas características em nós mesmos... olhemos as pequenas coisas do dia a dia. Não temos poder e talvez nem capacidade para transformar o nosso mundo exterior em um mundo mais justo e fraterno, mas a pergunta deve ser onde e como posso ser mais equilibrado, mais harmonioso e solidário nas minhas próprias relações? Estou tratando as pessoas, minha cidade, minha mãe Terra como amor, com delicadeza e fraternidade? É a partir dessa tomada de consciência, de cada um de nós, que o espelho pode começar a nos mostrar uma imagem diferente e mais bonita.

"Conhecimento verdadeiro de si próprio só é dado ao ser humano quando ele desenvolve interesse afetuoso para com os outros; conhecimento verdadeiro do mundo, o ser humano só alcança quando ele procura compreender seu próprio ser."
Rudolf Steiner



Cristina Campedelli Melchert 

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

O caminho interior e exterior






Assim como as flores murcham
E a juventude cede à velhice,
Também os degraus da Vida,
a sabedoria e a virtude, a seu tempo,
florescem e não duram eternamente.
A cada apelo da vida deve o coração
estar pronto a despedir-se e a começar de novo,
para, com coragem e sem lágrimas se
dar a outras novas ligações.
Em todo o começo reside um encanto
que nos protege e ajuda a viver
serenos transponhamos o espaço após espaço,
não nos prendendo a nenhum elo, a um lar;
sermos corrente ou parada não quer o
espírito do mundo.
mas de degrau em degrau elevar-nos e aumentar-nos.
Apenas nos habituamos a um círculo de vida,
íntimos, ameaça-nos o torpor;
só aquele que está pronto a partir e parte
se furtará à paralisia dos hábitos.
Talvez também a hora da morte
nos lance, jovens, para novos espaços.
O apelo da Vida nunca tem fim …
Sus, Coração, despede-te e cura-te!
Degraus - Hermann Hesse


Pensar sobre o caminho soa como algo bastante pessoal, talvez um certo tom de pronome possessivo, de algum modo ancorado cá por aqui, nalgum rincão da nossa intimidade. Carrega uma sonoridade de ninho, preenchido de nuances de identidade intangíveis por algum outro. O caminho por vezes se apresenta como uma fatalidade que vem veloz ao nosso encontro, preenchido de mistérios em suas curvas.

Joan Manuel Serrat pavimentou um trecho dessa nossa jornada em busca de lago, ou de nós mesmos, ao nos dizer:

“Caminante no hay camino, se hace camino al andar,
Al andar se hace camino
Y al volver la vista atrás
Se ve la senda que nunca
Se ha de volver a pisar”

Nesses termos o caminhar se mostra mais concreto, conjugando o permanente vir a ser, vir a tecer do novelo da nossa vida. No caminhar se realiza o mistério do espaço/tempo como unidade, coexistem a origem e a chegada, o antes e depois, a memória e a imaginação. Os destinos passam sob nossos pés na mesma velocidade com que almejamos os horizontes do nosso tempo; pode ser vertiginosa a tomada de consciência do constante desprender-se e lançar-se nos degraus da vida, pode ser também refrescante saber-se livre para inspirar-se de novos ares do tempo, para novos mirantes e desafios de cada lugar a que se chega.
Caminhar é um ato volitivo ainda que, no andar corriqueiro, o façamos automaticamente, com a consciência dedicada a outras paragens da nossa alma. Tal como Goethe, que andava para compor o segundo volume do seu Fausto, acompanhado de redatores daquilo que as inspirações lhe traziam à fala, o andar pode ser um importante exercício para desobstruir veias criativas, meditar ou simplesmente respirar das tarefas cotidianas. No entanto trato aqui o caminhar numa escala diferente da do simples andar.

Conquistar o andar é um dos preciosos milagres da infância. O esforço dedicado por uma criança para dar os primeiros passos é digno de alimentar almas adultas para qualquer tarefa que tenhamos, por mais dura que nos pareça. Lançar uma perna ao futuro e permitir que ele nos encontre; sustentar uma perna no passado, com todo o peso do corpo sobre ela, ainda que a consciência já esteja mais entusiasmada pelo adiante; pensar conscientemente no andar talvez dificultasse muito essa conquista que, passo a passo vai ganhando mais liberdade e se tornando um gesto que pode ser realizado com a consciência vigilante entregue a outras questões.

O caminhar, no entanto, pode ser entendido como uma espécie de esculturação de trilha, modelada por nossas escolhas, por cada julgamento, por nossos ideais de vida. As situações da nossa vida, entretecidas pelas redes de relações e lugares, vem em nossa direção, na medida em que caminhamos. Eu encontro os desafios, os obstáculos me encontram. Somos recorrentemente convidados a refazer nossas ferramentas de esculturar essa trilha, chamados a rever nossas faculdades de julgar, escolher e atualizar nossos ideias, perante essa concretude dos fenômenos.

Enquanto esculpo meu caminho, o caminhar me modela. Ser no mundo é saber-se em construção e contemplar a dinâmica dos lugares vindo a ser aquilo que dele fazemos.

Viver numa grande cidade, como São Paulo, é uma experiência de desenraizamento constante. A cidade se refaz muito depressa, mais rápido do que o tempo do despedir-se de lugares e relações com as quais nos identificamos. Os outros ao nosso redor são tantos, que não há tempo nem alma suficiente para cultivar interesse por todos, o bairro se remodela em função de um novo empreendimento ou rearranjo viário e, quando recobramos a consciência, o que era sólido, se fluidificou no tempo. Parece não ser possível se enrijecer numa cidade tão dinâmica! Entretanto, a falta de contato verdadeiro, a desterritorialização passa a representar verdadeiros interditos de humanização. O cultivo de uma vida interior, de onde floresçam jardins mais seguros passa a despontar como necessidade de premência crescente.

As nossas paisagens interiores, cultivadas ao longo dos lugares e dos tempos, podem revelar as nossas velas e ancoras. Cenários e pessoas que por ela passeiam, quando revisitados com intencionalidade, podem nos revelar seguros passos para caminhar. No fundo, o caminhar interior, em medidas individuais, é reflexo singular dos percursos que realizamos no mundo. Revisitar essas paisagens interiores é uma liberdade que podemos conquistar e da qual podemos haurir forças de reconhecer-se no vir a ser que nos transforma.

Quando nasceram nossos ideias de vida? Em que idade e lugar tomamos as nossas decisões mais estruturantes, como carreira ou família? Quais bosques dessas nossas paisagens interiores seguem alimentando essas escolhas do passado? Quais atividades seguem presenteando nossas paisagens interiores? Deste mundo em que sou um construtor ativo, meus ideais mais caros estão sendo mobilizados e postos em prática ou estão aguardando bom tempo?
Vivemos viradas de tempos e renascemos para nosso próprio caminhar. Em diferentes escalas de intensidade, essas são situações que se repetem nas nossas vidas. Apesar das turbulências, reconhecer as transições é inevitável. Por vezes reconhecemos os sintomas dessas viradas, que se enunciam em sinais mais evidentes e, noutras, somos surpreendidos por rupturas que nos demandam maior coragem e força.

Vamos sendo enquanto caminhamos. Pelas veredas que transcorremos, nosso eu vai se tecendo como escultor. Nesses momentos de virada, um âmbito superior da existência pode apresentar, tal como um esteio sutil, direções a seguir. Em lampejos de clareza, ou insight, uma escala superior de nós mesmos se revela.

Estar atento a esses lampejos pode nos alçar a outros patamares desse caminhar. O autoconhecimento e o reconhecimento do mundo ambiente se entretecem como unidade. O eu sou se realiza no contexto que construímos e pelos quais somos transformados. Eu e o mundo nos interdeterminamos.

O caminhar no mundo, nos afazeres corriqueiros ou nas grandes realizações, quando preenchidos por intencionalidade consciente e por liberdade diante de dogmas religiosos, de rígidos trilhos científicos ou de paixões ideológicas, espiritualiza as pegadas que ficam, passo a passo, marcadas no mundo. Nos deparar com outras pegadas, tal como obra de arte cocriada entre a humanidade e os demais elementos da natureza, a que passamos chamar de paisagem, nos inspira e desperta para os milagres dessa grande lemniscata. Passado e futuro, paisagens interiores e exteriores, destino e liberdade são dualidades que se manifestam como unidade fenomênica, quando nos dedicamos a esse caminho de autoconhecimento.

Caminhar em liberdade, cultivando as paisagens interiores, espiritualizando os portos em que dedicamos vida em obras. Aprender a transpor o torpor do conforto, do enraizamento, da paralisia dos hábitos, para viver o novo. Não furtar-se, entretanto, de estar pleno em cada fazer, em cada estar, pela eminencia da transitoriedade do tempo/espaço, vivendo no sonho do tempo propício, do lugar ideal. O apelo da vida nunca tem fim.


 Leandro Evangelista Martins

Tema de Reflexão do Mês

Escolhemos um tema como base de reflexão que será iluminado por profissionais de diversas áreas segundo seu olhar e suas vivências. Colaborações e comentários são bem vindos!

Iniciativas Antroposóficas na ZN

Escola Waldorf Franscisco de Assis (11) 22310152 (11) 22317276 www.facebook.com/EscolaWaldorfFransciscoDeAssis

Projeto Médico Pedagógico e Social Sol Violeta (PMPSSV)

Casa da Antroposofia ZN Rua Guajurus, 222 Jardim São Paulo (11) 35699600